É
assim que me sinto após esse julgamento do TSE. Um palhaço. Sinto
em cheio, jogado na minha cara com violência, como se fosse o
cassetete de um maníaco fardado quebrando na cabeça de um
manifestante, o imenso papel de palhaço que faço nesse circo
chamado democracia brasileira. Os insignes ministros, na verdade, não
fizeram absolutamente nada que eu não soubesse de antemão que iriam
fazer. Há tempos que os tribunais são absolutamente previsíveis:
se for contra o PT ou algum político que se tornou cachorro morto
(como Cunha), agilizarão o processo e condenarão; se for para
beneficiar um político amigo ou contrariar alguém que não hesite
em retaliar, retardarão até a prescrição ou absolverão. Para ser
sincero, tampouco discordo tão veementemente assim do aspecto
técnico do julgado. O problema das coisas, em geral, não é o
"quê", mas o "quem" e o "como".
Nesse
julgamento, Gilmar Mendes e os ministros que o acompanharam
"esculacharam", vamos abrir o verbo no popular. Mostraram
despudoramente ao Brasil e ao mundo o que, até pouco tempo atrás,
somente os "petralhas" denunciavam e eram tratados como
teóricos da conspiração: o judiciário possui uma face para o PT e
outra para os políticos amigos, de partidos que militam em favor de
uns, mais abastados, e em prejuízo de tantos outros, alguns mais
abestados, da classe média, que se apegaram tão ferrenhamente ao
antipetismo sob o pálio do falso moralismo anticorrupção e começam
a perceber que foram ludibriados. A face que o judiciário arreganha
para o PT parecer ser a mesma que costuma exibir para pretos, pobres
e prostitutas. Nada como espancar um prejudicado. Afinal, é fácil
bater em cachorro republicano, difícil é encarar o rottweiler, como
Temer está demonstrando ao arreganhar, babando, seus dentes e garras
para os operadores da Lava Jato. Fachin e JBS que o digam.
O
voto do relator, Herman Benjamin, colocou a nu a falta de isenção
de Gilmar Mendes. Benjamin leu decisões do próprio Gilmar Mendes
proferidas quando ele, Gilmar, tinha a intenção de atingir o PT.
Aliás, o ministro Gilmar Mendes oferece um exemplo caro ao mundo
(bem caro) do quanto o ser humano é capaz de mudar. Talvez possa
servir de modelo para os Alcoólatras Anônimos. Por exemplo, para o
Gilmar Mendes de dois anos atrás – tempo curto – tudo era
admissível, qualquer prova, qualquer evidência, que pudesse
prejudicar a Dilma. Às favas com as leis processuais, deve ter
pensado o Gilmar de dois anos atrás, o que interessa é evitar que
essa quadrilha (o PT) continue no poder. O Gilmar de hoje? A careca é
a mesma, mas, o direito aplicado? Quanta diferença. Tornou-se
garantista, vejam só. Às favas com o combate à corrupção, pensa
o novo Gilmar, o que interessa é manter a tranquilidade
institucional no país. Não se pode trocar de presidente a toda
hora, portanto, a atual quadrilha (Temer e cupinchas) deve ficar. Se
é para o bem geral da minha facção, diga ao povo que o corrupto
fica, proclamou D. Gilmar I, à beira do Lago Paranoá.
Esse
julgamento comprova que jamais foi intenção do judiciário, ou do
MPF, ou da Polícia Federal, forçar os limites da interpretação
das leis por uma boa causa, qual seja, como meio de combater a
corrupção. Ficou patente ser uma falácia, uma mentira, o
entendimento de parte respeitável do judiciário, segundo qual uma
ação como a Lava Jato, por ser especial e única, não está
submetida ao regramento legal ordinário, sob pena de não atingir
seus objetivos, afirmação desonrosa proferida pelo TRF-4.
Entendimento esse que, diga-se, pressupõe concordar com a
inauguração, na fase supostamente democrática do país, da
licitude de um tribunal de exceção. As exceções em nome do bom
combate somente possuem um alvo: a esquerda com potencial de atingir
o poder pelo voto, que é representada, nesse momento, apenas pelo
PT.
A
decisão do TSE grita para todos nós: salvo se filiado ao PT,
qualquer ladrão pode ser eleito e permanecer no poder, mesmo com
todas as provas do mundo. Se for um representante da Casa Grande,
pode tudo, porque, para esse, não se aplica a exceção legal da
Lava Jato, garante-se a presunção de inocência e salvaguardam-se
amplamente as garantias do processo criminal e as constitucionais. E
pru sinhôzinho, nada? Tudo! Berrou, divertido, o TSE. E se for um
presidente eleito pela esquerda? Ah, se é da senzala a gente inventa
uma pedalada fiscal, paga honorários a um advogado senil e a uma
advogada louca para acusar e bota pra fora. Cada um no seu lugar, ora
que coisa.
Eis
o ensinamento do TSE: quando o ladrão é de um partido que não
cause medo na Regina Duarte, aí os senhores ministros ficam
preocupados com a desordem na economia que um rompimento traumático
pode acarretar. Quando for de um partido que não cause rebuliço
sonoro pelos favorecidos com suas panelas Le Creuset, aí surge a
preocupação institucional com a tranquilidade política e social do
país. Se for alguém que irá destruir os direitos sociais,
trabalhistas e previdenciários e, por isso, seja considerado pela
imprensa como um "mal menor", aí emerge a inquietação
ministerial em favor da segurança jurídica. Todas as desculpas são
boas para manter no poder um ladrão que seja filiado a qualquer
partido, menos ao PT.
Relembrando
alguns fatos: (a) Genoíno foi condenado sem uma prova sequer de
enriquecimento ilícito, mas apenas por ter assinado um contrato de
empréstimo bancário para o PT, que foi declarado à Justiça
Eleitoral e, pasmem, foi pago: (b) Dirceu foi condenado sem uma prova
sequer, apenas porque a literatura jurídica, pervertida pelo
Supremo, permite a condenação de um superior que, certamente, deve
saber de tudo o que todos os nomeados fazem (do modo como foi
aplicada, a Teoria do Domínio do Fato permite colocar Deus na
cadeia, responsável-mor por todas as coisas); (c) Dilma foi
defenestrada do poder sem ter cometido crime algum, sem estar
indiciada na Lava Jato e sem a existência de qualquer prova sólida
de ter sido beneficiária de dinheiro ilícito (o que há é a
afirmação sui generis, posterior ao impeachment, e altamente
suspeita de um delator da JBS, que diz que a conta era para ela, mas
estava em nome do próprio delator); (d) Lula está sendo vítima da
maior caçada jurídica que esse país já presenciou, apenas porque
frequenta um sítio, cujo proprietário é um amigo e porque visitou
um apartamento que pretendia comprar (repetindo a ladainha cansativa,
o delator diz que o apartamento era dele, mas está em nome do
próprio delator, blá, blá e blá).
Além
disso, os políticos do PT que chegaram ao poder e que, após saírem
do governo, ganharam dinheiro proferindo palestras ou prestando
consultorias, são perseguidos como se o dinheiro dessas atividades
fosse sujo. Isso não acontece em relação a políticos de outros
partidos, embora seja um comportamento comum de ex-dirigentes. E não
somente políticos: quanto o Bernardinho, por exemplo, cobra por
palestras após ter sido técnico da seleção brasileira? Quanto FHC
cobra (será que o apartamento em Paris foi conquistado assim)?
Quanto Bill Clinton cobra? Quanto um juiz federal, após comandar a
mais famosa ação criminal do país, cobrará para proferir
palestras?
E
quanto a Michel Temer? Bom, ele está envolvido até o pescoço em
denúncias de corrupção no Porto de Santos, é mencionado diversas
vezes na Lava Jato, foi apontado pela JBS como beneficiário de
milhões e praticou as mesmas pedaladas fiscais que a Dilma, mas...
ah, sendo ele, tudo bem. No problem. Ele é gente como a
gente, representa a Casa Grande.
Vejam,
não se trata do roto falando do esfarrapado. Primeiro, porque, por
razões que não cabe aqui estender, mas tenho diversos textos sobre
o assunto no blog que podem ser consultados, não acredito na versão
do Mensalão ou do Petrolão sobre a existência de um malévolo
controle petista sobre a corrupção brasileira. Essa é a teoria da
conspiração dos coxinhas. Sendo assim, não acredito que um governo
altamente corrupto tenha sido destituído para moralizar a nação;
acredito, pelo contrário, que um governo com nível de honestidade
acima da média e empenhado na construção de um projeto decente de
país foi destituído por uma camarilha de corruptos para
desmoralizar a nação, o que, diga-se, já conseguiram. Sempre com
apoio resoluto de insignes representantes da Globo, com seu poder de
hipnose e fascínio exercido sobre certos membros do judiciário. Ah,
a vaidade, diria Satanás, é o pecado que mais aprecio.
Se
houve um período no qual se tentou reduzir a intensidade da
corrupção, buscou-se o fortalecimento das instituições de
combate, perseguiu-se a difusão da cultura ética no país através
do principal instrumento para isso, a educação, isso ocorreu,
paradoxalmente, naquele que é considerado por grande parte do povo
como o mais corrupto da história, o governo do PT. Nada como a
propaganda, diria Goebbels, para transformar ouro em merda, milagre
da alquimia midiática.
Curiosamente,
o governo mais corrupto da história, mas, dentre os grandes
partidos, o que possui o menor número de políticos envolvidos na
Lava Jato ou notoriamente enriquecidos com a política. O mais
corrupto, mas cujos representantes mais simbólicos moram há décadas
no mesmo imóvel de classe média. O mais corrupto, mas cujas provas
são inexistentes, muito difíceis de encontrar ou inseguras, como
contas bancárias e imóveis em nome dos próprios corruptores,
sítios em nome de amigos de décadas, pedalinhos de crianças e
barquinhos de alumínio. O mais corrupto, mas em face de cujos
políticos há necessidade de criminalização de palestras e
consultorias efetivamente proferidas para que se consiga processá-los
e condená-los. Não se obtém uma só conta milionária ou
propriedades no próprio nome do político. Enquanto isso, em relação
a políticos importantes de outros partidos, como alguns paulistas e
mineiros, os delatores entregam cópia de depósito bancária e
outros documentos. Mas... isso não importa, como gosta de dizer um
famoso magistrado do interior do país. O que importa, mesmo, é
tornar o cidadão um palhaço.
Sou
um palhaço, diz o TSE. Não sei por que, mas tenho a sensação de
que não sou o único palhaço nesse imenso circo. Sinto forte a
presença de outros 200 milhões de palhaços ao meu lado. Será só
imaginação?
Milhões
que desejavam que as instituições funcionassem em defesa da
democracia. Será que nada vai acontecer?
Democracia
que foi o fio condutor da adesão maciça dos brasileiros às
gigantescas passeatas "Fora Temer" realizadas no país
inteiro. Será que é tudo isso em vão?
O
previsível comportamento do judiciário, PGR e outras instituições
que falham em pacificar o país de forma republicana e democrática,
nos obriga, a todos, que saíamos às ruas, não somente agora, na
próxima greve geral, mas ininterruptamente, enquanto as instituições
teimarem em desrespeitar os princípios democráticos. Será que
vamos conseguir vencer?
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