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| Charge de Ivan Cabral |
Há
uma máxima, atribuída ao poeta francês Charles Baudelaire, segundo
a qual o maior truque realizado pelo diabo foi convencer a todos de
sua própria inexistência. Grande esperteza. O diabo sabe que o povo
estará pronto para adotar uma atitude passiva e se acomodar quando
restar convencido de que determinado mal é fruto de lenda urbana, de
teorias da conspiração ou da histeria de poucos. Nada como a inação
popular para quem deseja o poder. Em terra de apáticos, o mal ativo
será rei.
O
diabo, porém, é ainda mais maligno. Não satisfeito em, num passe
de alquimia, transmutar uma existência concreta, a sua própria, em
delírio de poucos para, com isso, se tornar invisível, a liberdade
da invisibilidade lhe proporciona realizar outra façanha alquímica
extraordinária: metamorfosear uma inexistência, o éter, em medo coletivo
palpável. Isso porque o diabo sabe que a melhor maneira de
conquistar, manter e ampliar o seu poder é através da criação de
um inimigo comum que, unindo o povo num propósito, direcione a
energia coletiva para o objetivo desejado pelo mal.
