Publicado originalmente no jornal GGN em 22/06/2026
Por respeito aos
leitores, aviso, antes que iniciem a leitura, que o texto é longo,
mais até do que costumam ser meus textos. Confesso ser incapaz de
escrever poucas linhas sobre temas que considero complexos. Ao
iniciar um texto, tenho um tema como alvo, mas não planejo a sua
extensão. Porém, com raras exceções, acabam se alongando mais do
que parece ser admissível nos tempos tuiterianos. E, para piorar, a
cada leitura de revisão o texto mais se alonga do que reduz. Então,
para os que preferem os textos ou vídeos curtos de BlueSky, X,
Instagram ou Youtube, não recomendo a leitura. Provavelmente será
considerada cansativa e talvez aborrecida. Para os que não se
importam com isso ou os que preferem textos longos (sim, eles
existem), espero que apreciam a leitura, que, como já sugere o
spoiler
do título, será sobre Israel.
Dito isso, passo ao
tema.
O Estado soberano
moderno é constituído por três elementos fundamentais, povo (ou
nação), território e governo. Em síntese bastante apertada, e via
de regra pois existem exceções, o conceito de nação exige a
presença de identidade histórica, linguística, social e cultural,
bem como, mas não necessariamente, religiosa e de ancestralidade, já
que, em geral, a luta por autonomia política depende de um
sentimento coletivo de pertencimento em um grau elevado, que, ao
menos em princípio, somente é capaz de ser atingido pelas forças
agregadoras de um passado comum.
Território é o
elemento puramente geográfico, ou seja, é o local no qual o povo se
estabelecerá após a conquista da autonomia e sobre a qual exercerá
sua soberania. Pode estar vinculado à ancestralidade do povo, ou
seja, tratar-se do local de origem da pessoa e de seus ascendentes,
mas isso não é condição sine
qua non.
A vontade de alcançar a autodeterminação coletiva em território
independente, seja onde for, pode ser mais importante do que manter a
visão das colinas da infância. Inclusive, a desnecessidade de que o
Estado soberano seja criado sobre um território vinculado ao passado
do povo é um elemento importante que será considerado na presente
reflexão.
Por fim, governo é
a instituição administrativa do Estado que exerce o poder político
e possui a finalidade de planejar e executar a distribuição dos
recursos escassos.
Existindo esses
três elementos (povo, território e governo), a autonomia coletiva
ou a soberania surge a partir de dois métodos históricos
principais, que podem ser utilizadas isolada ou conjuntamente: força
bruta e negociação política interna e/ou externa.
A presente reflexão
é sobre o processo de formação de um Estado soberano relativamente
recente, Israel, que conta apenas setenta e oito anos. Refletir sobre
Israel se justifica pelo relevante fato de que, desde sua criação,
tornou-se um grave fator de desestabilização política mundial. Os
problemas daí decorrentes não preocupam somente a Palestina ou
Israel, mas o mundo. Não se trata de apontar culpas, mas de entender
que, desde sua gênese, a criação de Israel num território
milenarmente ocupado por vários povos distintos, sem ponderações
sobre as vontades coletivas de cada um deles, passou a provocar
turbulências políticas e econômicas severas que são suportadas,
em maior ou menor grau, por todas as pessoas do mundo, saibam elas
disso ou não.