domingo, 27 de setembro de 2026

13 motivos para não votar no Zero Um



1 – Ninguém sabe dizer quais são as propostas para um eventual governo do Zero Um (candidato a presidente, filho do ex-presidente condenado e atualmente presidiário);

2 – Os filhos de Bolsonaro não são apelidados de "Zero" à toa. A alcunha deriva do fato de que ninguém é capaz de apontar uma só iniciativa do pai ou dos filhos em benefício da maioria da população brasileiro, principalmente os pobres. Nunca foram antissistema e somente atuaram a favor de si mesmos ou dos ricos nos mais de 30 anos em que estão ativados no sistema político nacional, sendo que, até 2018, sempre estiveram na condição de “baixo clero”, como são chamados os políticos sem relevância que em geral votam com o bolso. Ou seja, todos eles possuem valor semelhante ao de um zero à esquerda;

3 – Quem acreditou na mentira do Lula corrupto por causa de um pedalinho no sítio de um amigo antigo e de uma opção nunca concretizada de compra de um triplex, com muito mais razão deveria acreditar na corrupção de uma família cuja renda sempre esteve vinculada a cargos públicos, como os Bolsonaro, e ainda assim compraram mais de 50 imóveis valiosos à vista. Principalmente do Zero Um, que comprou uma mansão avaliada na época em mais de 10 milhões de reais, porém subavaliada em 6 milhões, pagando 3 milhões à vista e financiando 3 milhões em trinta anos, porém quitando tudo em 3 anos. Não há explicação alguma para a origem desses 6 milhões de reais; o Zero Um sempre exerceu mandato político profissional;

4 – Um dos modos de enriquecimento do Zero Um se deu através do esquema de corrupção denominado "rachadinha", que consiste em nomear pessoas, em geral, necessitadas para cargos públicos, mas não para trabalhar e sim para que o próprio político que nomeia se aproprie da maior parte do salário, o que revela a visão instrumental que lança sobre as pessoas, utilizadas meramente como ferramentas para a obtenção de ganhos próprios. Basta observar o que acontece com praticamente todos os ex-aliados dos Bolsonaro, abandonados à própria sorte;

5 – A família Bolsonaro toda está envolvida com os criminosos milicianos que substituem os traficantes nas comunidades pobres, não para dar segurança aos moradores, mas para substituí-los no comércio ilegal de gás, internet (gatonet), transporte em vans e motos e também das drogas, através do controle das bocas de fumo. Não acredite em mim. Faça uma pesquisa no Google com os seguintes parâmetros “Flávio Bolsonaro” e “Rio das Pedras”. Dê uma lida nos resultados obtidos e conclua você mesmo;

6 – A família Bolsonaro, e principalmente o Zero Um, está completamente atolada no escândalo do Vorcaro, a quem o Zero Um chama de "irmão" e para quem pediu e recebeu cerca de 70 milhões de reais;

7 – Ex-aliados, que foram muito íntimos dos Bolsonaro, como Julian Lemos, que atuou como coordenador da campanha de Jair Bolsonaro, afirmam que a fortuna real do Zero Um é de cerca de 700 milhões de reais;

8 – O escândalo do Banco Master e o Dark Horse, envolvendo principalmente a família Bolsonaro e seus aliados, enterraram definitivamente a desculpa moralista esfarrapada do combate à corrupção como justicativa de voto numa extrema direita racista, misógina, homofóbica, antiecológica e anticiência. Dada a dimensão da contaminação política pela corrupção nesse caso, que atingiu mais duramente políticos da direita e da extrema-direita, não é mais possível, de forma honesta, atribuir aos políticos de esquerda a primazia na corrupção. O eleitor deve votar em quem ele vislumbra mais competência para o governo;

9 – A família Bolsonaro é traidora da pátria. A oposição política não pode chegar ao ponto de justificar o ato de pedir intervenção de uma potência nuclear como os EUA contra o país, o que pode ter sérias consequências no futuro. Quem admite isso como válido terá que aceitar que, mais tarde, uma oposição de esquerda peça, por exemplo, a Putin ou ao governo chinês, que intervenha militarmente contra o Brasil em um eventual governo de direita;

10 – A família Bolsonaro se afirma "terrivelmente evangélica" e é apoiada por pastores evangélicos raivosos como Malafaia, ou seja, são assumidamente extremistas religiosos da fé evangélica, o que certamente provocará conflitos de natureza religiosa, o que já vem ocorrendo com os ataques e destruição de templos das religiões de matrizes africanas, mas tem potencial explosivo para atingir templos, imagens e feriados sagrados da maioria católica, situação que, antes deles, sequer se cogitava nesse país;

11 – Por falta de inteligência política e capacidade administrativa, a situação econômica do país piorou muito durante o governo do pai. Certamente piorará ainda mais com o Zero Um, publicamente reconhecido como ainda mais frágil politicamente do que o “Zero zero”;

12 – Nos governos de Lula, os indicadores de inflação, desemprego, renda média do trabalhador e crescimento econômico estiveram entre os melhores da história do Brasil. Nenhum governo desse país, muito menos o do pai do Zero Um, jamais cuidou melhor dos pobres, da educação e da saúde pública como Lula. Você intimamente sabe disso, por mais que esteja em negação ou na cegueira de um antipetismo doentio;

13 – O motivo 13 para não votar no Zero Um, é que você, eleitor, não é um idiota. Pode ter críticas ao PT, justas até, mas não vai sacrificar a si e à sua família por conta de um antipetismo irracional, muito menos para beneficiar uma família que, além de nunca ter demonstrado possuir as qualidades necessárias para governar um país complexo como o Brasil, tem, pelo contrário, fortíssimas evidências de que não quer o governo pelo bem do país, mas pelo bem da própria família. Faça um bem a si mesmo: não atire no próprio pé.

sábado, 26 de setembro de 2026

Epidemia Vorcaro: Pode faltar quórum para o julgamento pelo STF

Todos temos assistido, estupefatos, aos fatos envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal. Há muito calor e muita emoção permeando as discussões sobre esses eventos, não somente entre os ministros, mas também no meio jornalístico e entre nós próprios, cidadãos. Tanto na malsinada sessão do Supremo, dessa última terça-feira (dia 15/09), como nos relatos da imprensa e nas discussões pública, há muita conveniência, hipocrisia e sectarismo, mas pouca inteligência, racionalidade e lógica.

Ante de iniciar qualquer análise, é imperioso entender alguns detalhes.

O ministro André Mendonça é relator de dois procedimentos de natureza penal que tramitam no Supremo que envolvem os escândalos denominados de “Caso Master” e de “Farra do INSS”. Os procedimentos apuram a suposta participação de autoridades públicas em desvio de dinheiro público, recebimento de vantagens indevidas e outros ilícitos conexos. Os dois escândalos estão interligados pela figura do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e, juntos, talvez representem o maior escândalo de roubo de dinheiro público da história do Brasil, valores que fariam os desvios da Lava Jato parecerem roubo de pirulito.

Segundo as informações até o momento divulgadas, o Banco Master foi utilizado por Vorcaro para a prática, por via de empréstimos consignados fraudulentos, de rapinagem de aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. A avaliação produzida pela imprensa é que, dos cerca de R$ 6 bilhões de reais desviados dos aposentados e pensionistas, o banco de Vorcaro teria se apropriado de quase um terço, pouco menos de R$ 2 bilhões de reais.

Além disso, o Banco Master foi beneficiado por transferências bilionárias de instituições públicas. Os exemplos mais impactantes são o Banco de Brasília (BRB) e o Rioprevidência.

O BRB é uma sociedade de economia mista do Distrito Federal que, durante o governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, e em momento no qual já se encontrava em situação econômica fragilizada, decidiu “investir” mais de R$ 12 bilhões de reais em papéis podres do banco de Vorcaro.

O Rioprevidência, autarquia estadual que administra e paga as aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, com situação equilibrada até então, passou a balançar as pernas após o “investimento” de R$ 3 bilhões feito no Banco Master pelo governador bolsonarista Cláudio Castro.

São exemplos significativos. Além dessas instituições públicas, um sem-número de outras também resolveu “contribuir” para o empoderamento dos cofres de Daniel Vorcaro através de repasses de dinheiro público.

Isso evidencia que todo dinheiro “doado” para agentes públicos por Vorcaro, suas empresas, seus sócios, seus “laranjas” ou contratos de prestação de serviços superfaturados ou totalmente fajutos, possui finalisticamente natureza pública. Conclui-se, assim, que tais “doações” consistem em obtenção de vantagem indevida pelo agente público que as recebeu, inclusive, e talvez principalmente, os ministros do Supremo Tribunal Federal.

Nesse sentido, é hipócrita, iludida ou ingênua algumas alegações de que os valores prodigamente entregues por Vorcaro a incontáveis agentes públicos possuem natureza privada, não sujeito à fiscalização dos poderes públicos.

Disputa narrativa, fogo “amigo” dos críticos de esquerda e eleitores que pensam ser de direita

 

                Publicado originalmente no jornal GGN em 15/07/2026

A candidatura da extrema direita, embora tenha sofrido algum prejuízo eleitoral por conta do escândalo do caso Master e ainda que tenha sofrido perda de intenções de votos segundo as pesquisas eleitorais, continua inacreditavelmente forte, o que é espantoso. É tarefa complexa definir o que move uma porção significativa do eleitorado brasileiro a apoiar um movimento político que é majoritariamente repudiado pela mais destacada inteligência brasileira.

O repúdio não decorre de preconceitos ou “memes do Zap”, mas da constatação de que a extrema-direita, além de ser um movimento político claramente favorável aos interesses dos mais ricos, portanto com alto teor de malignidade coletiva, persegue o retorno a um modelo de sociedade que existiu em momento sombrio e indigno do passado da humanidade, o qual se pensava para sempre solapado. Um passado no qual pobres, mulheres, negros e indígenas eram considerados cidadãos de terceira classe, sem direito a autodeterminação ou a votar e ser votado; no qual o direito de voto era censitário, somente podendo ser exercido por quem tinha posses; no qual qualquer orientação diversa da heterossexual tinha que ser sufocada ou exercida clandestinamente, sob pena de repúdio, prisão ou morte; no qual a questão ambiental nem era uma questão a ser considerada politicamente; no qual o liberalismo econômico era pleno, autorizando jornadas de doze horas em seis dias da semana, inclusive para crianças de cinco anos, com o domingo liberado não por questão de saúde do trabalhador, mas em favor da religião, e sem espaço para direitos trabalhistas ou previdenciários; no qual a imensa maioria dos pobres não era sequer considerada na elaboração de políticas públicas voltadas à moradia, saúde, segurança, educação, saneamento básico e outras.

Esse projeto de retorno às indignidades do passado não se resume ao plano do desejo, tendo sido concretizado ou assim tentado, nos quatro anos em que a extrema direita esteve no poder. Apesar disso, no entanto, as pesquisas indicam que parte significativa dos eleitores continuam a dar sustentação. O apoio eleitoral vem, inclusive, de parte dos eleitores negros, mulheres e pobres, categorias que possivelmente seriam as mais prejudicadas pelo eventual retorno do neofascismo ao poder.

A submissão histórica de milhões de desfavorecidos ao poder estabelecido nas mãos de poucas pessoas não é novidade. Ao longo do tempo, muitos pensadores se debruçaram sobre a questão dos motivos que levam milhões de pessoas a aceitar passivamente a hierarquia social injusta imposta pelos pouquíssimos ricos que integram a elite dominante. São exemplos Étienne de La Boétie, no século XVI, com seu “Discurso da Servidão Voluntária”, e, mais recentemente, Paulo Freire, que enxergava a ausência de educação libertadora como culpada pela resignação ou mesmo adesão do povo aos interesses opressores. Educação libertadora deve ser entendida como aquela capaz de criar visão humanística e capacidade crítica nos indivíduos e não, como ocorre, meramente aperfeiçoar as engrenagens biológicas de que o setor produtivo necessita para funcionar.

Israel: um equívoco bíblico e geopolítico

 


            Publicado originalmente no jornal GGN em 22/06/2026

Por respeito aos leitores, aviso, antes que iniciem a leitura, que o texto é longo, mais até do que costumam ser meus textos. Confesso ser incapaz de escrever poucas linhas sobre temas que considero complexos. Ao iniciar um texto, tenho um tema como alvo, mas não planejo a sua extensão. Porém, com raras exceções, acabam se alongando mais do que parece ser admissível nos tempos tuiterianos. E, para piorar, a cada leitura de revisão o texto mais se alonga do que reduz. Então, para os que preferem os textos ou vídeos curtos de BlueSky, X, Instagram ou Youtube, não recomendo a leitura. Provavelmente será considerada cansativa e talvez aborrecida. Para os que não se importam com isso ou os que preferem textos longos (sim, eles existem), espero que apreciam a leitura, que, como já sugere o spoiler do título, será sobre Israel.

Dito isso, passo ao tema.

O Estado soberano moderno é constituído por três elementos fundamentais, povo (ou nação), território e governo. Em síntese bastante apertada, e via de regra pois existem exceções, o conceito de nação exige a presença de identidade histórica, linguística, social e cultural, bem como, mas não necessariamente, religiosa e de ancestralidade, já que, em geral, a luta por autonomia política depende de um sentimento coletivo de pertencimento em um grau elevado, que, ao menos em princípio, somente é capaz de ser atingido pelas forças agregadoras de um passado comum.

Território é o elemento puramente geográfico, ou seja, é o local no qual o povo se estabelecerá após a conquista da autonomia e sobre a qual exercerá sua soberania. Pode estar vinculado à ancestralidade do povo, ou seja, tratar-se do local de origem da pessoa e de seus ascendentes, mas isso não é condição sine qua non. A vontade de alcançar a autodeterminação coletiva em território independente, seja onde for, pode ser mais importante do que manter a visão das colinas da infância. Inclusive, a desnecessidade de que o Estado soberano seja criado sobre um território vinculado ao passado do povo é um elemento importante que será considerado na presente reflexão.

Por fim, governo é a instituição administrativa do Estado que exerce o poder político e possui a finalidade de planejar e executar a distribuição dos recursos escassos.

Existindo esses três elementos (povo, território e governo), a autonomia coletiva ou a soberania surge a partir de dois métodos históricos principais, que podem ser utilizadas isolada ou conjuntamente: força bruta e negociação política interna e/ou externa.

A presente reflexão é sobre o processo de formação de um Estado soberano relativamente recente, Israel, que conta apenas setenta e oito anos. Refletir sobre Israel se justifica pelo relevante fato de que, desde sua criação, tornou-se um grave fator de desestabilização política mundial. Os problemas daí decorrentes não preocupam somente a Palestina ou Israel, mas o mundo. Não se trata de apontar culpas, mas de entender que, desde sua gênese, a criação de Israel num território milenarmente ocupado por vários povos distintos, sem ponderações sobre as vontades coletivas de cada um deles, passou a provocar turbulências políticas e econômicas severas que são suportadas, em maior ou menor grau, por todas as pessoas do mundo, saibam elas disso ou não.

Ações erráticas de Donald Trump: uma possível explicação.

Publicado originalmente no jornal GGN em 02/06/2026

Ao contrário do que alguns supõem, Marx não sustentou que a ascensão do comunismo dependeria exclusivamente da elevação do nível de consciência de classe capaz de conduzir à organização coletiva de uma revolução proletária. Segundo Marx, a revolução do proletariado seria capaz de acelerar esse processo. Todavia, o advento do comunismo disso não dependeria, tratando-se de uma inevitabilidade; o resultado inexorável das próprias contradições intrínsecas ao capitalismo mais avançado.

Além do surgimento dessas contradições como fato gerador impositivo do novo sistema econômico, seria desejável que a ascensão do comunismo ocorresse quando o desenvolvimento tecnológico dos meios de produção alcançasse a estrutura material apta a produzir em abundância os bens de que o povo necessita, assim superando a escassez inerente ao capitalismo em função da necessidade de lucro.

Como a História demonstra, as revoluções comunistas foram realizadas em países que não se encontravam nesse patamar mais avançado, o que possivelmente favoreceu o fracasso dessas experiências, ao menos no que toca à efetividade e manutenção do sistema econômico comunista. Em alguns, a precocidade revolucionária basicamente obrigou a instauração de um totalitarismo violento como forma de conter a dissidência composta pelo povo insatisfeito e pelos ainda não convencidos. Aqui vale destacar que a ditadura do proletariado, prevista por Marx, não necessariamente deveria se materializar em repressões violentas e assassinas, tratando-se meramente de substituta da ditadura da burguesia que estava no comando até então e continua prevalecendo.

O fato é que a União Soviética não somente naufragou em sua proposta comunista como deixou de existir. A China, por sua vez, para sobreviver, adotou um sistema misto, o socialismo de mercado, que parece capaz de chegar ao necessário nível de avanço tecnológico do capitalismo, ainda que sob controle estatal, ou seja, com eliminação ou redução dos efeitos daninhos do capitalismo tardio, como a financeirização extrema. Nesse momento, é muito difícil qualificar a China como um efetivo país comunista. Os meios de produção não são propriedades do Estado, salvo aqueles considerados estratégicos, atributo não exclusivo do comunismo, encontrando eco em países capitalistas que atuam para controlar setores eleitos, como os de energia ou saneamento, por exemplo.

Generais insubordinados e pastores extremistas: nossas saúvas famintas

Publicado originalmente no jornal GGN em 11/01/2023


O Brasil assistiu, estarrecido, a vandalização da capital da república, realizada por cerca de três ou quatro mil pessoas vestidas com o uniforme verde e amarelo da adorada seleção brasileira do craque Neymar. Alguns deviam cantarolar “eu já lavei o meu carro, regulei o som, já tá tudo preparado vem pois quebrar tudo é bom” enquanto destruíam o Congresso, o STF e o Palácio do Planalto. Outros agrediram violentamente os raros policiais que tentaram contê-los, quem sabe seguindo os ensinamentos de Roberto Jefferson em seu tutorial de defesa da democracia. Muitos, profundamente religiosos como a Cássia Kis, ajoelharam-se e rezaram, talvez pedindo sucesso na empreitada de “salvar o país dos comunistas” através da destruição total do que encontravam pela frente, inclusive o acervo artístico e histórico que havia nos palácios. Vários, com a ênfase extática similar à de um pastor fervoroso como Malafaia, diziam que faziam aquilo em nome de Deus, da pátria, da família, da liberdade e, ao que parece, também em nome de seu mito. Havia os que, possivelmente satisfeitos com o que inicialmente parecia ser o sucesso da operação, gravavam em vídeo, para divulgação nas redes sociais, o rosto alegre e sorridente, como o de Regina Duarte quando invocou o pum do palhaço. E batiam continência para os policiais e soldados que lhes protegiam, como se estivessem à frente de um general Villas Boas, um Braga Netto ou até mesmo, vá lá, de um Augusto Heleno.

Após a estupefação inicial, recuperada a sanidade racional, indaga-se: quem, de fato, foi surpreendido com o acontecido? Ao meu ver, talvez a ema que pasteja no gramado do Planalto, aquela que recusou a cloroquina. Ainda assim, tenho dúvidas. Fora a ema, a mais ninguém, surpresa zero. Trata-se de tragédia anunciada, previsível há tempos, e bota tempo nisso.

A selvageria, inédita, pela intensidade, na história da república, é o resultado direto da leniência das autoridades, principalmente as militares, com as “manifestações pacíficas” que há três meses vêm bloqueando as estradas, impedindo violentamente uma criança de ter seus olhos operados (“que fique cego”, disse o manifestante “pacífico”), sonegando a uma filha o direito de se despedir da mãe moribunda, atacando agressivamente jornalistas de rádio e televisão que não fossem da Jovem Pan, tocando fogo em veículos, colocando bomba em caminhão-tanque para explodir aeroporto e se amontoando sem impedimento em frente aos quartéis.

Antes disso, já era previsível a partir das notícias dando conta de fascistas invadindo festa para assassinar aniversariante esquerdista, espancando pessoas desconhecidas na rua pelo simples fato de vestirem alguma peça de roupa vermelha, vandalizando veículos que ostentassem o símbolo de partidos de esquerda ou o nome de seus candidatos e outras ações desse naipe. E, na verdade, bem lá no começo, já tudo indicava que assim seria quando o “mito” deles, munido de imenso amor cristão e evangélico, dizia ser a favor da tortura e de assassinatos políticos, enquanto seu filho desfilava com camisa portando a inscrição “eu, tranquilamente, vou te matar”.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A “defesa” de Flávio Bolsonaro é ridícula e inaceitável

 

O imbróglio no qual se encontra atolado o senador Flávio Bolsonaro é indefensável e, em situações normais, deveria conduzir o Senado a iniciar um procedimento administrativo disciplinar para a apuração, em tese, de possível improbidade administrativa ou, na melhor das hipóteses, de falta de decoro parlamentar.

Um senador da República, no pleno exercício de suas funções, não pode servir ao papel de arrecadador de fundos privados para nenhum tipo de iniciativa, cultural ou não, e muito menos ainda quando a iniciativa se refere a prestar louvor ao próprio pai. A admiração filial é natural mas o presente ao pai deve ser custeado pelo próprio bolso.

O que não pode é um parlamentar visitar milionários com o intuito de intermediar investimentos vultosos para uma iniciativa privada, um filme cujo propósito é louvar um político ainda vivo e, pior, que possui a qualidade pouco invejável de ser presidiário após condenação criminal. Tal intermediação, praticada pelo senador, atenta contra os princípios públicos da impessoalidade, da moralidade e da transparência (publicidade).

O conflito de interesses é evidente e o fato de ocupar o cargo de senador da República é por si um modo de coação daquele a quem se pede a doação. Se qualquer um do povo se dirigir a um milionário para pedir cinco mil reais para um sopão dos pobres, ele provavelmente vai rir da cara do pedinte. Se o pedido vier de um senador da República, o milionário, apesar de insatisfeito, doará sem hesitar dezenas de vezes mais, para garantir que não haverá rancor e retaliação.

sábado, 25 de abril de 2026

Mensagem para os meus amigos

 


Publicado originalmente no Facebook, em 20/03/2015 

Hoje em dia praticamente não utilizo mais o Facebook como um meio de inter-relação de amizade. Resolvi deixar isso para o mundo físico, para o contato real e visual, como sempre foi até poucos anos atrás. O Facebook constitui para mim, atualmente, apenas um canal de troca de informações e ideias sobre a política nacional, através do qual divulgo textos de minha autoria e também de outras pessoas, que considero importantes para reflexão.

Contudo, hoje farei uma exceção para dirigir-me aos meus amigos e familiares reais, de carne e osso, não virtuais.

Pertenço à classe média e maior parte de vocês, meus amigos, também.

Essa mesma classe média que tem se colocado contra o governo do PT.

Nada contra, faz parte do jogo democrático ser contra um partido e desejar que outro seja escolhido para governar. Fiz isso a vida toda. Os partidos políticos existem para isso mesmo, para representar as diversas formas do pensar político da sociedade. Democracia é isso: é o cidadão possuir o direito sagrado e inalienável de opção quanto àquilo que considera o melhor caminho para a sociedade.

Do mesmo jeito, realizar manifestações, greves e passeatas é o jogo jogado da liberdade de expressão. O cidadão tem o direito de exteriorizar sua insatisfação com o projeto político que está em andamento.

Todavia, existem limites insuperáveis nesse jogo político. Um desses limites é a exteriorização de preconceitos, de falta de humanidade, de sensibilidade pela dor do outro ser humano e de clamor pela vinda de um regime de exceção, de uma ditadura.

sexta-feira, 27 de março de 2026

A invasão da Venezuela e a ameaça à supremacia do mundo civilizado

 

Publicano no jornal GGN em 13/01/26, às 10:38

 A invasão da Venezuela define um marco histórico negativo com significado geopolítico ainda mais grave do que os conflitos de Palestina ou Ucrânia. Não que se esteja pondo em dúvida a gravidade do genocídio palestino, que é indubitavelmente gravíssimo e indesculpável, ou da quebra da soberania ucraniana, que, ao fim e ao cabo, certa ou não, trata-se de resposta da Rússia às sucessivas quebras dos acordos encetados com os países da Otan.

O que se coloca é que, sob o ângulo das relações internacionais, a invasão da Venezuela expõe um perigo imperialista muito maior e difuso, capaz de atingir, sem exceção, todas as soberanias do mundo, dada a quase inesgotável capacidade militar do país ofensor, os EUA, e às bravatas expostas publicamente pelo seu tresloucado governante, o ególatra Donald Trump.

Não é de hoje que os Estados Unidos fizeram ressurgir a ótica do poder absoluto que predominava dezenas ou centenas de séculos atrás pelos impérios mais poderosos, como o romano, e mesmo antes disso, com as chamadas invasões bárbaras praticadas por vândalos, hunos, visigodos e tantos outros povos nômades, que visavam apenas o saque, a rapinagem, a pirataria e o massacre, sem pretensão de dominação permanente.

Como já tive a oportunidade expor em texto anterior, os Estados Unidos da América representam o exército defensor das corporações mais ricas do mundo. Não são “o” império, mas, sim, o soldado e a espada dos imperadores, que são os bilionários oligarcas.

Através desse braço armado, representado pelos Estados Unidos, a economia mundial vem sendo submetida à vontade desses novos imperadores de quatro modos principais, mas não únicos:

domingo, 25 de setembro de 2022

O amor convertido em voto para curar o ódio bolsonarista

 

Ao final da entrevista que concedeu no Programa do Ratinho, no SBT, dia 22 de setembro, Lula pediu aos eleitores que comparecessem às urnas para nelas depositar amor e esperança na forma de voto. Por que um candidato ao maior cargo eletivo do país se preocuparia em invocar o amor no ato de votar? Amor é um sentimento necessário para a consecução de um projeto político de país? A resposta, sem sombra de dúvida, é sim; o amor é essencial em todas as relações humanas e, em especial, o Brasil necessita e clama desesperadamente pelo retorno do amor ao seio de nossa sociedade.

A invocação do amor se torna necessária nessa eleição porque, na anterior, em 2018, infelizmente a maioria do eleitorado optou pelo candidato do ódio. Eleito, a defesa do ódio e da violência alcançou a principal vitrine política do país, a presidência da república, com todas as condições políticas e técnicas favoráveis que disso decorrem. A partir daí, para surpresa de ninguém, iniciou-se uma escalada na discórdia, na violência e no armamento.

Materialmente, isso se traduziu em naturalização gradual de ocorrências que antes eram consideradas perturbadoras. Ferir e matar o adversário político, ao que parece, tornou-se lugar-comum, não mais uma causa de horror. Grande parte da sociedade brasileira foi acometida de um desvio psicológico coletivo, quase uma histeria, causadora de distorção no espectro ético-moral que orienta opiniões e ações.

sábado, 17 de setembro de 2022

Eleitores nem-nem e indecisos não podem ir para Paris

No momento em que escrevo (17/09/2022) faltam 14 dias para a eleição. A média das pesquisas mais recentes e idôneas indicam, grosso modo, que Lula está próximo de 50% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro passa um pouco de 30%, com Ciro e Tebet disputando o 3º lugar, somando ambos cerca de 12% do eleitorado.

Uma leitura das pesquisas mais elastecida no tempo, todavia, demonstra que, ao longo do último ano, repetidamente Lula apresenta um percentual bastante próximo de 50% dos votos válidos, um pouco aquém ou um pouco além, estando a vitória no 1º turno invariavelmente próxima dos limites da margem de erro. Assim, embora haja uma sinalização da possibilidade de que a decisão final seja carregada para o 2º turno, igualmente indicam que qualquer espirro eleitoral em seu favor determinará a vitória de Lula no 1º turno. Em outras palavras, a possibilidade de vitória no 1º turno está na caixa de Schrödinger fazendo companhia ao gato. As chances de ocorrer ou não são equivalentes.

Justamente em função dessa proximidade, com chance real de pôr um fim no mandato do atual presidente logo no 1º turno, as redes sociais entraram em polvorosa, com eleitores e simpatizantes da candidatura do ex-presidente pressionando os eleitores, principalmente os que se inclinam a votar em Ciro Gomes, para que adiram ao voto útil em Lula, assim pondo um ponto final precoce no bolsonarismo no poder. O motivo pela preferência pelos eleitores de Ciro é que, em princípio, são considerados eleitores de esquerda, portanto, contrários a Bolsonaro. Tebet e a maioria dos demais candidatos que apresentam mais do que traço nas pesquisas, ainda que tenham adotado um discurso de oposição, estiveram até recentemente com os pés atolados no bolsonarismo, o que, em princípio, implica serem adeptos do mesmo modelo, talvez apenas um pouco menos fétido.

O bolsonarismo sem Bolsonaro

    

    Obs: Texto publicado primeiramente no jornal GGN, em 16/09/2022

    Há um ano as pesquisas eleitorais vêm, consistentemente, indicando que os eleitores brasileiros não renovarão o mandato do atual presidente. Contudo, é preciso adotar a máxima cautela. A eleição somente se vence após a contagem dos votos. O próprio primeiro mandato de Bolsonaro recomenda essa precaução. Além disso, uma vitória sobre Bolsonaro não significa exatamente vencer o bolsonarismo. Vejamos.

    Nos idos de 2016 e 2017, Bolsonaro surge como candidato a presidente vindo do ponto mais profundo das entranhas do baixo clero do parlamento federal, no qual integrava o chamado "centrão", bancada composta por deputados de diversos partidos distintos, todos sem expressividade política individual na Câmara, mas que juntos, legislatura após legislatura, desde a constituinte de 1988, usam a força conjunta de seus votos, e o consequente potencial de travar os projetos do Executivo, para chantagear todos os presidentes eleitos desde então.

    Parlamentar absolutamente medíocre, com um índice de atuação aquém do desidioso, tendo apenas um par de leis de sua iniciativa aprovadas em 30 anos de atividade parlamentar, mesmo essas sendo desimportantes para o povo, conseguiu a incrível façanha de se apresentar como novidade política e vender-se como capaz de comandar a então 8ª economia do mundo. O ditado da raposa se candidatando a cuidar do galinheiro nunca fez tanto sentido.

Lula não é anticristo, nem bicho papão

Obs: Texto publicado primeiramente no jornal GGN, em 29/08/2022.

O que exatamente as pessoas imaginam ser uma “família feliz”?

Abordo o tema em função do excelente artigo É preciso falar com os evangélicos1, da socióloga Esther Solano, publicado na Carta Capital e objeto de matéria no GGN, cuja leitura é altamente recomendada. No artigo, Solano pontifica sobre a necessidade de estancar o “pânico moral” que a equipe e os simpatizantes de Bolsonaro induzem diuturnamente no seio do eleitorado evangélico, vendendo a ideia de que Lula e o PT são uma ameaça à família.

Segundo Solano, precisamos nos esforçar para convencer o povo cristão que ainda conserva a capacidade de reflexão, ou seja, a maioria que não é bolsonarista-raiz, de que o discurso que coloca Lula na condição de ameaça à família é uma falácia, uma fraude. Não é uma tarefa fácil, pois, em grande medida, a disseminação do pânico moral anti-Lula parte de pastores evangélicos, principalmente os mais raivosos, que costumam misturar política com religião e transformar seus púlpitos em palanque, desonrando a memória de Cristo. Trata-se de demonstrar a má-fé justamente daqueles em quem os evangélicos deveriam confiar plenamente. Não merecem essa confiança e direi por quê.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Derrota e fuga de Bolsonaro: que sonho incrível!

A ascensão do bolsonarismo ao poder foi a coisa mais deletéria a acontecer com o país desde a ditadura militar. Num país que vinha, desde o governo Collor, aos poucos se afirmando perante o mundo e se colocando como modelo em termos de respeito às instituições democráticas, nas pautas igualitárias, na gestão dos recursos ambientais e na mitigação da desigualdade social, a eleição de um representante do pensamento protofascista bolsonariano foi um balde de água fria e uma frustração política gigantesca.

O representante máximo do bolsonarismo, ora presidente, é uma figura política grotesca que dificilmente encontra comparação no Brasil e no mundo. Seu pensamento é medieval, absolutista. Contra o Estado laico1, defende a prevalência da visão religiosa também no plano político. Essa visão teocrática, dogmática e indiscutível por natureza, é exatamente o que ocorria no passado e ainda ocorre atualmente, como são exemplo os países muçulmanos.

O pensamento bolsonariano é, antes de tudo, em sua essência, antidemocrático. A vida toda Bolsonaro pregou que, eleito presidente, daria um golpe no dia seguinte, fechando Congresso e Supremo, os dois outros poderes da república. Em outras palavras, tornaria-se um ditador. Por isso mesmo, nenhum eleitor do bolsonarismo pode afirmar-se democrata, pois se utiliza da democracia apenas para a ela pôr fim, destruindo as liberdades civis.

Embora tenha se tornado um certo lugar-comum, não há como falar da ameaça bolsonarista sem indicar o nazismo alemão como exemplo das possibilidades. Afial, trata-se do mais importante modelo histórico negativo do que pode decorrer da omissão ou pouco-caso de cidadãos e eleitores com políticos de orientação despótica que manejam o discurso moralista cristão para alavancar seus projetos de dominação. Hitler e o nazismo não teriam matado milhões de judeus, ciganos, homossexuais e outras minorias políticas se os alemães brancos e cristãos tivessem repudiado, desde o nascedouro, essa excrescência política. Em seu livro autobiográfico, escreveu Hitler2:

domingo, 21 de agosto de 2022

Invasão da Ucrânia, guerras híbridas e o retorno da guerra fria

 

Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano autor do livro O Declínio do Império Americano, sustenta que a sociedade humana está no limiar de uma profunda alteração no modelo de sociedade. Segundo ele, há um esgotamento do modelo capitalista, o que conduzirá a humanidade a uma encruzilhada na qual deverá optar por um novo modelo, aparentemente com duas alternativas: (a) retorno ao regime de poder centralizado e excludente similar às monarquias absolutas e seus estamentos hereditários; ou (b) criação de uma sociedade focada na dignidade humana, com redução das diversas desigualdades (econômica, cultural, racial, sexual, etc). A primeira opção de sociedade será adotada se a narrativa dos ricos for vitoriosa, o que Wallerstein denomina de “espírito de Davos”. Caso os pobres vençam essa guerra, estabelecendo as bases ideológicas da nova sociedade, será a vitória do “espírito de Porto Alegre”. Em outras palavras, trata-se de uma guerra que poderá definir a ascensão de um modelo de sistema social opressivo, tipo medieval, ou de um sistema libertário, inovador, sem paralelos na história.

A guerra em direção à mudança do modelo socioeconômico já se iniciou há tempos, supostamente desde a derrubada das torres gêmeas americanas, em 2001. São exemplos de batalhas narrativas as primaveras árabes, as jornadas de junho de 2013, a operação Lava Jato e, agora, a invasão da Ucrânia, dentre inúmeras outras. É chamada de guerra híbrida porque, embora possa ocorrer o uso de forças armadas convencionais e seus indefectíveis armamentos, sua maior arma não são os mísseis balísticos, mas a desinformação, a distorção dos fatos, o uso da pós-verdade. O objetivo é a manipulação do pensamento de todo um povo, conduzindo-o, não somente a aceitar, mas a desejar uma mudança que lhe é desfavorável, sendo benéfica apenas ao capital.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Putin atirou no próprio pé?

 

No artigo "Putin será derrotado", Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp), defende a tese, em resumo, de que, ao invadir a Ucrânia e desestabilizar a região, Putin contribui dá um tiro no próprio pé, pois fortalece a OTAN por reforçar o argumento de sua necessidade.

Como análise do "dever ser", perfeita a crítica do Aldo às ações russas na Ucrânia. Como entendimento do "é", apresenta-se um tanto poliana.

Não se sabe por quanto tempo os EUA conseguirão dar sobrevida à sua economia, mas dificilmente passará uma ou duas décadas até que desmorone por completo.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Putin abusou?

 

O lead do artigo "A guerra da Ucrânia, a mídia e os heróis e vilões da Marvel", do jornalista Luis Nassif, publicado no jornal GGN, é o seguinte:

"Com essa preparação, é possível que se chegue ao final da linha concluindo que Putin, de fato, abusou, quando ordenou a invasão.

Mas se sairá desse padrão de tratar o comandante de um dos países mais poderosos do planeta, como um mero descontrolado de boteco".

O grande "xis" da questão colocada por Nassif se desdobra no seguinte: teria mesmo Putin abusado geopoliticamente ao ordenar a invasão da Ucrânia? Havia outros meios de enfrentar o poder que se quer hegemônico dos EUA?

Ambas as respostas, segundo creio, passam pela negativa e explico.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A elite empresária: razão e insensibilidade

 

“Esqueça-se a responsabilidade social e política da mídia, o compromisso com fatos e valores democráticos, e fixemo-nos apenas no vetor negócios”.

O jornalista Luís Nassif invoca a reflexão acima no artigo “A Lava Jato e o desmonte da credibilidade da mídia”, publicado no jornal GGN. Nele, aborda-se a questão da perda, pela grande mídia, em meros quatro anos, de quase 70% dos leitores, agudizando um fato que já vinha antes, de modo mais lento, se desenvolvendo consistentemente. Segundo a inteligência da matéria, o súbito incremento da velocidade da queda se explicaria, com alto grau de certeza, pelo alinhamento acrítico e, portanto, dolosamente irresponsável, dos “jornalões” às ações ilícitas cometidas pela operação lava jato. A partir daí, a debandada dos leitores tornou-se uma avalanche montanha de credibilidade abaixo.

O presente texto objetiva responder à provocação de Nassif, ou seja, refletir sobre as motivações subjacentes de alguns poderosos empresários brasileiros que parecem gastar mais energia com questões políticas menores (pois nada há mais importante e emergente do que combater a miséria, a fome e, principalmente nesse momento histórico, fornecer saúde pública em quantidade e qualidade) do que com o sucesso dos próprios negócios. Embora Nassif tenha mirado nos donos da grande mídia, porque, claro, são os que mais se expõem justamente em função da atividade que desenvolvem, o mesmo espanto reflexivo, porém, deve ser direcionado aos demais membros da elite empresária brasileira, nossos bilionários, pois praticam ações similares com idênticos móveis subjacentes. É espantoso verificar que, embora reconhecendo o inegável direito da elite empresária possuir posicionamento político explícito, muitas gestores demonstram despreocupação com o dever de zelo pelo próprio empreendimento e, conforme o caso, pelo compromisso que tem com os acionistas na obtenção de lucro. Em lugar de guardar um distanciamento seguro dos posicionamentos políticos de alta controvérsia, emanados das diversas cores do espectro político, social e partidário, dos cidadãos, atiram-se de cabeça na guerra política, assumindo alinhamentos que se opõem, não somente ao pensamento, mas a interesses e necessidades de milhões e milhões de brasileiros e brasileiras, de todas as etnias, gêneros, credos e inclinações. Agindo assim, correm o risco de contrariar o principal objetivo empresarial, a razão de ser do próprio negócio, que é arregimentar o maior número possível de clientes. Alguns já foram alvos de boicotes explícitos dos consumidores.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conceitos-chave para a interpretação da realidade Parte III

 


Esta é a décima parte da série “Indivíduo, sociedade e a interpretação da realidade”. Os textos possuem um encadeamento lógico, porém permitem a leitura autônoma. Os links para os que desejarem a leitura das nove primeiras partes estão disponibilizados no final do artigo. 

  • Poder

O instinto de sobrevivência induz os animais ao desejo de priorizar a própria necessidade em relação a dos demais seres vivos. Um nome plausível para essa vontade de impor ao mundo o próprio desejo é “poder”. O poder é possivelmente o elemento mais importante a ser considerado na compreensão da realidade. Dada a condição animal do ser humano, não somente carrega essa inclinação egoística, como, em função do estágio de consciência e cultura no qual se encontra, nele ela é potencializada. Pessoas poderosas já mostraram ser capazes de destruir o mundo para a satisfação da própria vontade; estiveram perto de fazê-lo em algumas ocasiões da história. O poder, porém, não está presente somente no ambiente macro. A ambição por controle é um sentimento que permeia praticamente todas as inter-relações humanas; está presente na disputa entre reinos por territórios, mas também quando mendigos competem pelo conteúdo da lata de lixo. Compreender isso é de suma importância para escapar da ingenuidade na análise quanto às motivações, a fim de extrair as camadas de fraude e hipocrisia que encobrem certas ações políticas, muitas vezes realizadas sob os falsos motes de justiça, liberdade e democracia.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Chapa Lula-Alckmin é o que temos pra hoje

 


A propósito do intenso debate acerca da possível chapa Lula-Alckmin, deve-se, primeiro, lamentar a invocação de Lula para novamente disputar a presidência do país. Após dois mandatos de sucesso, como presidente de uma das maiores economias do mundo, melhor seria que não mais retornasse a disputas eleitorais como candidato. O seu papel por excelência seria o exercício da condição simbólica de defensor da nação, interna e externamente, como um diplomata de honra, atribuição típica de ex-presidentes de grandes nações. Na verdade, ele até fez isso enquanto pôde, até o ponto em que a hipocrisia política permitiu, cessando apenas quando a atuação em defesa de empresas brasileiras, perante governos estrangeiros, foi criminosamente criminalizada, com evidentes propósitos políticos. Contudo, a conjuntura atual de fato exige a candidatura de alguém com sua estatura e ele parece estar à vontade com o retorno, de modo que de bom grado o povo a está aceitando explosivamente, como indicam as pesquisas. Segundo, estar atento à circunstância que ainda é mera conjectura. A proposta está na mesa, sendo negociada, porém sem definição até o momento. Ao que parece, Márcio França está fazendo o que pode para melar a chapa, ao fazer exigências inviáveis.