O imbróglio no qual se encontra atolado o senador Flávio Bolsonaro é indefensável e, em situações normais, deveria conduzir o Senado a iniciar um procedimento administrativo disciplinar para a apuração, em tese, de possível improbidade administrativa ou, na melhor das hipóteses, de falta de decoro parlamentar.
Um senador da República, no pleno exercício de suas funções, não pode servir ao papel de arrecadador de fundos privados para nenhum tipo de iniciativa, cultural ou não, e muito menos ainda quando a iniciativa se refere a prestar louvor ao próprio pai. A admiração filial é natural mas o presente ao pai deve ser custeado pelo próprio bolso.
O que não pode é um parlamentar visitar milionários com o intuito de intermediar investimentos vultosos para uma iniciativa privada, um filme cujo propósito é louvar um político ainda vivo e, pior, que possui a qualidade pouco invejável de ser presidiário após condenação criminal. Tal intermediação, praticada pelo senador, atenta contra os princípios públicos da impessoalidade, da moralidade e da transparência (publicidade).
O conflito de interesses é evidente e o fato de ocupar o cargo de senador da República é por si um modo de coação daquele a quem se pede a doação. Se qualquer um do povo se dirigir a um milionário para pedir cinco mil reais para um sopão dos pobres, ele provavelmente vai rir da cara do pedinte. Se o pedido vier de um senador da República, o milionário, apesar de insatisfeito, doará sem hesitar dezenas de vezes mais, para garantir que não haverá rancor e retaliação.
