Historicamente, os impérios suseranos dominaram os estados vassalos (ou tributários) de dois modos principais: através da extremada violência ou pela integração cultural.
A extremada violência possui o inconveniente de manter o povo dominado em constante revolta contra as forças do país agressor, situação comercialmente prejudicial, pois desvia a energia do povo para a resistência e sabotagem, não para a produção dos bens desejados pelo país usurpador.
O Império Romano, percebendo isso, adotou uma tática mais sábia: a integração mútua entre as culturas do império e do país invadido, mantendo a estrutura básica de poder, as formas de manifestação cultural e implementando, no território dominado, a sua famosa política de pão e circo que utilizava para a manutenção da tranquilidade social e política na própria Roma. Os romanos perceberam que o povo de qualquer nação deseja, em geral, apenas possuir a sensação de ter uma vida tranquila e com um mínimo de dignidade, bem imaterial que a pax romana implementava.
A tática foi um sucesso, permitindo a expansão do poder romano sobre, praticamente, toda a Europa e parte significativa da África e Ásia, inclusive Oriente Médio.
O reverso da moeda é que, como sói ocorrer em qualquer dominação imperial, com ou sem pax imperialista, o povo dominado permanece no status socioeconômico original, sem perspectiva de melhoria através das gerações. Isso porque a maior parte da riqueza produzida pelo povo dominado é direcionada para os cofres do dominador e não para o florescimento do povo local, cujo destino marcado é o de manutenção eterna daquelas condições mínimas de dignidade que permitem a exploração máxima de cada indivíduo. Em paralelo, todo ato de rebeldia é combatido com violência exemplar, com prisão, tortura ou morte.
Qualquer semelhança desse tipo de dominação “primitiva” com o capitalismo atual não é mera coincidência: o último deriva do primeiro seguindo à risca o ditado popular “entregar os anéis para não perder os dedos” ou “mudar para manter tudo como está”.
Para os que supõem que o tipo romano de dominação imperial foi superado pela ascensão de conceitos civilizatórios atuais como direitos humanos, democracia, soberania nacional, autodeterminação dos povos e decisões transnacionais multipolares, os Estados Unidos vêm demonstrando inequivocamente, há décadas, que estão redondamente enganados.
Não é de hoje que os Estados Unidos fizeram ressurgir a ótica do poder absoluto que predominava dezenas ou centenas de séculos atrás, não somente através do processo de difusão cultural adotado pelo Império Romano, mas mesmo antes disso, com as invasões que visavam apenas o saque, a pirataria e o massacre, sem dominação permanente, como faziam os vândalos, hunos, visigodos e tantos outros.
Através de seu braço armado, representado pelos Estados Unidos, os bárbaros dos nossos tempos, os bilionários, insinuam o seu saudosismo quanto ao uso direto e sem máscaras da força bruta para conquistar seus alvos comerciais, utilizando o poder de forma absoluta e sem pudor, de modo inquestionável, acima do bem e do mal.
Como já tive a oportunidade expor em texto anterior, os Estados Unidos da América representam o exército defensor das corporações mais ricas do mundo. Não são "o" império, mas, sim, o soldado e a espada dos imperadores. Nessa condição, a economia mundial é submetida à vontade dos imperadores de quatro modos principais, mas não únicos:
(a) corrompendo os governos nacionais para que privilegiem os interesses do império em detrimento dos nacionais;
(b) corrompendo políticos nacionais para que cometam crimes de lesa-pátria na defesa dos interesses imperiais;
(c) concedendo empréstimos gigantescos, diretamente ou através de instituições como Banco Mundial e FMI, que são condicionados a exigências futuras cujos resultados beneficiam os interesses imperiais;
(d) assassinando políticos de países estrangeiros que interfiram no andamento dos interesses imperiais; ou
(e) através da invasão armada.
Seja qual for o método, o objetivo é idêntico: fragilização econômica da nação-alvo para obrigá-la ao cumprimento da agenda imperial, principalmente através da exploração, direta ou não, das commodities do país-alvo.
Não é teoria da conspiração, mas fato histórico reconhecido, que a espada dos imperadores, os Estados Unidos, vêm atuando há décadas para desestabilizar governos de países soberanos, muitos pacíficos e até, em princípio, que gozam da “amizade” (sempre falsa) dos americanos.
A partir de 1950, quando já detinham a condição de maior potência militar mundial, os Estados Unidos estiveram envolvidos, direta ou indiretamente, militarmente ou não, em, no mínimo, duzentas intervenções no território de outros países soberanos, tendo um quarto dessas intervenções, ou seja, pelo menos cinquenta delas, ocorrido a partir de 1990, após o colapso da União Soviética.
São exemplos não exaustivos, com indicação de país, ano de ocorrência e interesse comercial subjacente à intervenção: (1) Síria, 1949, petróleo; (2) Irã, 1953, petróleo; (3) Guatemala, 1954, agronegócio; (4) Vietnã, Laos e Camboja, 1955 a 1975, manutenção da hegemonia americana frente a URSS (anticomunismo); (5) Iraque, 1963, petróleo; (6) Brasil, 1964, interesses corporativos americanos (anticomunismo); (7) Chile, 1973, interesses corporativos americanos (anticomunismo); (8) Argentina, 1976, interesses corporativos americanos (anticomunismo); (9) Panamá, 1981, Canal do Panamá e anticomunismo; (10) Equador, 1981, petróleo; (11) Nicarágua, década de 1980, evitar a construção do Canal da Nicarágua e interesses corporativos americanos (anticomunismo); (12) El Salvador, década de 1980, interesses corporativos americanos (anticomunismo); (13) Venezuela, 2002, Petróleo; (14) Panamá, 2002, Canal do Panamá; (15) Afeganistão, 2001, motivos muito difusos, possível defesa do financiamento clandestino da CIA através do tráfico de heroína; (16) Iraque, 2003, petróleo; e (17) Brasil, 2005-2017 (do Mensalão à Lava Jato), petróleo, agronegócio e construção civil.
Não colocarei as fontes dessas informações. É muita coisa. O leitor honesto poderá pesquisar diretamente no Google. Para a maior parte delas, basta colocar o parâmetro “intervenção dos estados unidos, nome do país, ano”. Algumas exigem um pouco mais de dedicação. Lembrem-se que as big techs defendem os interesses corporativos. Portanto, o real interesse por trás de cada intervenção deve ser buscado em letras miúdas, nas entrelinhas ou subentendido, porque a narrativa oficial destacada sempre será de levar a democracia, a liberdade e blá blá blá aos “povos oprimidos”.
Nunca foi pela democracia, pela paz, pela liberdade ou pela justiça, sempre foi pelo dinheiro e pela hegemonia ideológica (aquela que privilegia os bilionários).
Diferentemente dos exemplos apontados, porém, penso que a intervenção na Venezuela marca um novo período histórico: a da sinceridade imperial.
Pela primeira vez o comandante da armada imperial diz claramente a motivação de sua intervenção em um país soberano: o controle político do país e, portanto, da exploração do petróleo venezuelano.
Repito: o controle ou o saque das riquezas existentes em outro território sempre foi o mote de todas as guerras e intervenções de uma nação sobre outra. Com o avanço civilizatório imposto pela modernidade, passou-se a ter pudor de assumir essa motivação mesquinha, o que levou a disfarçá-la sob a desculpa de motivações “dignas” para tais guerras e intervenções, como liberdade, democracia, justiça e por aí vai.
Ao que parece, esse pudor está desaparecendo. Afinal, todo mundo sabe o que está por trás de guerras e intervenções, mesmo os hipócritas que fingem acreditar em motivações “humanitárias”. Para que mentir, então?
A sinceridade de Darth Trump não causa espanto algum em pessoas bem informadas. Desde a ascensão do Tea Party nos Estados Unidos ou do neofascismo no mundo ocidental, movimentos defendidos pela extrema-direita, inclusive no Brasil, a hipocrisia cedeu lugar ao despudor orgulhoso de apoiar toda e qualquer indignidade contra a humanidade que seja capaz de possibilitar a ideologia de enriquecimento individual infinito a qualquer custo. E daí que o povo fique sem assistência médica, sem segurança alimentar, sem educação pública e outras “esmolas”, desde que a economia permita que os ricos fiquem cada vez mais ricos?
A aparente sinceridade de Darth Trump indica que o modelo de intervenção adotado será o da pax romana, ou seja, com os Estados Unidos permitindo a manutenção da estrutura hierárquica e da cultura da província venezuelana, controlando indiretamente as marionetes locais para a transferência das riquezas para a metrópole.
Se não adotadas medidas transnacionais de condenação e retaliação, o estupro estadunidense contra a soberania venezuelana detonará o Direito Internacional e sepultará de vez os fóruns multilaterais de decisões transnacionais, conduzindo o mundo a um panorama geopolítico tipicamente pré-medieval.
Todas os países ou grupos de países munidos de poder (leia-se, força militar e nuclear) se sentirão autorizados e confortáveis em impor seus interesses sobre países mais fracos militarmente que detenham algum patrimônio por eles considerados essenciais para os seus interesses nacionais.
Os próprios Estados Unidos poderão invadir o Canadá ou a Groenlândia dado o anunciado “interesse estratégico”. A Rússia pode tomar de vez toda a Ucrânia e até pensar em invadir a Finlândia. A China não pensará duas vezes em retomar, à força, o seu domínio sobre Taiwan, Hong Kong, Tibete e outros territórios que considera seus. O Brasil pode aspirar a retomar o Uruguai. Quem sabe a Bélgica reforce seu poderio militar para reconquistar o Congo?
Tudo é possível com o retorno ao estado pré-moderno, sem respeito à soberania e à autodeterminação dos povos. Basta desejar a riqueza alheia para justificar o saque ou a incorporação do território de outra nação.
É a barbárie, pura e simplesmente.
A resposta dos países deveria ser dura, implacável: romper relações diplomáticas e comerciais com um país que viola sistematicamente as leis internacionais e as decisões dos fóruns de representação multilateral, invadindo um país para dele tomar a maior riqueza de seu povo, o petróleo. Chamar seus embaixadores de volta e fechar as representações diplomáticas.
Sei que parece loucura e que existem interdependências comerciais dificílimas de romper. Porém, existem momentos na história que dependem de movimentos corajosos dos povos, das nações e de seus representantes. Creio que a invasão da Venezuela é um desses momentos.
Os Estados Unidos reacenderam um modelo de imperialismo bárbaro, caracterizado pela mesma ótica simplória, primitiva e violenta adotada pelo garoto forte que pratica bullying contra seus “amiguinhos” menores e mais fracos: eu sou o mais forte, eu mando, você obedece.
Somente completos imbecis não percebem o quão perigoso é deixar que essa antiga visão de mundo retorne ao seio da sociedade planetária como opção geopolítica. Disso para o retorno da escravidão direta, da servidão feudal, do totalitarismo absolutista, da imposição da religião de estado, da estamentatização da sociedade e outros males de épocas bárbaras é um passo muito pequeno.
Parafraseando Neil Armstrong, a ação estadunidense na Venezuela representa um pequeno passo para um ser humano deletério (Darth Trump) mas um salto gigantesco para a humanidade retornar à barbárie.
O que se verifica, no entanto, são declarações tímidas ou, por incrível que pareça, solidariedade à ação estadunidense, nem falo de lunáticos como Milei e Netanyahu, mas de figuras consideradas ponderadas, como Macron.
Caso a ação de Trump não seja rechaçada com vigor, outros países e territórios com riquezas minerais que interessam aos EUA entrarão definitivamente em sua mira, como a Colômbia, o Canadá, a Groenlândia e até o Brasil.
Não é hora de pensar com o bolso.
O momento é grave, histórico e capaz de definir o futuro da humanidade, estando a exigir decisão firme, mesmo que exija sacrifício econômico.
Como gostam de dizer os estadunidenses, não há ganho sem dor.
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