Tudo bem? Como vocês estão? Espero que estejam muito bem.
Pensei firmemente em não responder sua mensagem. Não por grosseria, mas por considerar que, ao impor um “tampo” na relação, como você disse, não caberia mais nenhum tipo de tentativa de aproximação. Tampo significa fechamento total. Eu entendi que você não quer mais contato e decidi inicialmente respeitar isso.
Porém, após pensar um pouco, entendi que a nossa longa e bonita história de amizade, se é para ser encerrada definitivamente através desse “tampo”, merece um fechamento um pouco mais honroso do que o limitado “fique aí com suas convicções que eu fico aqui com as minhas”.
Dada essa longa história, repito o que disse antes, sempre desejei, e continuo desejando, que você e sua família tenha a melhor vida possível, com saúde, felicidade e sucesso. Só desejo o bem para vocês, que continuarão sendo queridos, mesmo que não nos vejamos nunca mais.
Veja, não estou dizendo que vou ficar insistindo em qualquer coisa, seja na continuidade de nossa relação (hipótese que já considero superada desde há alguns anos) seja em ofender o seu posicionamento.
Não é isso que desejo.
Quero apenas aproveitar esse último momento, o momento do “tampo”, para esclarecer com um pouco mais de detalhamento o meu posicionamento.
Deixo claro, antes dos argumentos, que não tenho a menor intenção de me colocar num degrau ético-moral ou de conhecimento superior ao seu. Nossas culturas são diferentes, só isso. Você tem uma opinião negativa sobre o meu posicionamento, assim como tenho do seu. Faz parte.
Desculpe-me por repetir, mas insisto em minha tese de que o meu afastamento não decorre de diferenças meramente de política partidária, por conta desse ou daquele partido, que é o sentido que as pessoas costumam dar à palavra.
Nossas diferenças não são partidárias, mas profundamente filosóficas, pertinentes à definição do conceito e dos objetivos da vivência em sociedade e quais seriam os meios de alcançar uma “vida boa coletiva”.
Ao fim e ao cabo, é política sim, mas uma outra espécie de política, mais ampla, mais próxima da experiência de vida real que desejamos que cada indivíduo experimente durante a sua existência.
Peço que você tenha a pureza de alma de acreditar que quem escreve aqui é um cara que já foi muito próximo de você, que você sabe que não é político profissional e nem é filiado a nenhum partido, que não recebe nenhum tipo de verba para defender esse ou aquele partido. Esse cara não está criando “narrativa” (como gostam de dizer) para te enganar. Eles, os líderes do movimento, certamente estão te enganando, eu não.
Faço isso porque quero um mundo bom para todos nós. Pura convicção pessoal. Tudo que vou escrever vem da minha alma, de minhas crenças sinceras, adquiridas ao observar o mundo, apesar de bem pequenininho, a partir dos olhos de gigantes.
Por conta disso, eu simplesmente me recuso a aceitar que existam mendigos em uma sociedade tão rica, que produz tantos bilionários (pesquise: apenas algumas dessas fortunas, juntas, seriam capazes de acabar com a miséria existente em todo o mundo para sempre), e concordo com aqueles que advogam que isso seja evitado mesmo ao custo do orçamento público.
Porém, vimos aflorar, não somente no Brasil, mas no mundo inteiro, uma ideologia política que milita abertamente em favor das seguintes iniquidades, só para ficar nesses exemplos:
(1) redução do tamanho do Estado, o que significa, substantivamente, diminuição brutal dos gastos públicos com os pobres, inclusive com saúde (vacinação incluída) e educação, mas não com os ricos (como com os juros da dívida pública altíssimos que vão para os bolsos dos ricos investidores, empréstimos subsidiados pelo BNDES, isenções tributárias e outros gastos públicos destinados aos ricos);
(2) manutenção da exclusão social através da negação de políticas de justiça social distributiva como o bolsa-família (tudo isso é uma decorrência natural do primeiro item);
(3) negacionismo ambiental e climático (com o objetivo oculto de favorecer os ricos, sejam agricultores, do ramo da construção civil ou outros tipos de negociantes);
(4) apologia da violência, seja do Estado (violência policial) ou do indivíduo, com a defesa da posse de armas, comprovadamente causadora do aumento de confronto armado de cidadão comum contra cidadão comum em discussões banais;
(5) promoção de diversos preconceitos, como homofobia, transfobia, misoginia, racismo, elitismo e outros (na maior parte das vezes utilizados pelos líderes da extrema-direita como prática diversionista causadora de estridência coletiva para evitar o debate público sobre a destinação orçamentária);
(6) busca pelo autoritarismo (golpe de Estado e imposição de ditadura).
Tudo isso é buscado através da invocação do lema “pátria, família e liberdade”, lema falso como uma nota de três reais, utilizado por praticamente todos os regimes fascistas já impostos na humanidade, o que inclui Mussolini e Hitler. Falso porque o fascismo não quer liberdade, quer ditadura, e invoca pátria e família como ferramenta de convencimento para a adesão ao autoritarismo de que necessita para comandar sem oposição popular.
O escritor inglês Samuel Johnson, já em 1775, antes de qualquer regime fascista, já advertia: "O patriotismo é o último refúgio dos canalhas", chamando a atenção para o uso do falso amor à pátria para que os oportunistas alcancem seus intentos fraudulentos. No Brasil, os líderes “patriotas” pedem que uma nação poderosa invada e bombardeie o nosso país. Quanto patriotismo!
Nem vou falar do uso da religião para fins políticos. Isso é lugar-comum desde Roma. Quem acredita que um pastor tipo Malafaia (existem outros desse mesmo nível) pratica os ensinamentos de Jesus nunca leu a bíblia.
Por conta dessas características e também de outras menos evidentes, a ciência social e política classifica o movimento bolsonarista como essencialmente autoritário (redução da democracia), racista (objetiva a supremacia branca), elitista (busca tirar direitos dos pobres, inclusive o de votar), misógino (impondo o patriarcado e redução do papel social da mulher) ou seja, é um movimento essencialmente antidemocrático e preconceituoso.
Desafio qualquer um a apresentar três sociólogos ou cientistas sociais com peso acadêmico (doutores e pós-doutores com livros publicados) que advoguem a ideia de que o bolsonarismo é democrático. Caso sejam apresentados, o que duvido muito, apresentarei, para cada um desses três, dez outros dizendo o contrário, ou seja, trinta.
O bolsonarismo, como todo neofascismo do mundo, aproveita-se do ambiente democrático para destruí-lo. O ex-presidente, atual presidiário na Papudinha, tentou estabelecer sua própria ditadura, só não conseguiu.
Vou abrir parênteses aqui para dizer que sou intelectualmente modesto o suficiente para aceitar que existem inúmeras pessoas que dedicaram a vida inteira a estudar de modo científico (ou seja, com pesquisa e metodologia) o indivíduo e a sociedade, por isso contam com uma visão de mundo infinitamente mais profunda do que a minha. Sempre fui assim, sempre reconheci a inteligência onde ela de fato está. E sem exceção resolvi segui-la, em lugar de repudiá-la.
O contrário disso é a arrogância de achar que a própria opinião, fundada em puro “achismo”, sem nunca ter aberto um livro, é superior a desses gigantes. Vejo comentários bolsonaristas nas redes de pessoas claramente semianalfabetas ou analfabetos funcionais, que torturam a língua portuguesa com suas escritas, alguns ao ponto da total impossibilidade de compreensão do que escrevem, mas com a ousadia arrogante de criticar uma Márcia Tiburi, um Jessé Souza, ambos doutores e pós-doutores em suas próprias áreas de atuação, só para ficar nesses exemplos.
Essas pessoas, que nunca estudaram numa faculdade federal, dizem que lá é local de maconha e sexo. Eu, que fui aluno de federal, digo o seguinte: pena que, em minha época, não existiram esses festins de luxúria; eu teria curtido alguns.
Minha irmã, minhas duas filhas e um sem-número de conhecidos também estudaram em federais. Diversos magistrados com quem trabalhei foram ou são professores de universidades federais. Nenhuma dessas pessoas viu sombra dessas coisas ocorrerem. Classificam como ridículas as pessoas que proferem tais excrescências. É possível acontecer o uso de maconha ou outra droga em federais? Sim, na mesma medida em que ocorre naturalmente em tribunais, em hospitais, em batalhões e delegacias policiais e qualquer outra instituição humana, até em templos religiosos. Sim, é triste, mas existem sacerdotes cachaceiros, maconheiros, fumantes e cheiradores; nem vou falar em mentirosos, porque aí é praticamente um pré-requisito para a profissão.
Esse é o tipo de “crítico” e de “crítica” que as pessoas utilizam para justificar sua adesão à extrema-direita. Sem fundamento científico e sem fundamento sequer na experiência de vida, seja na própria vida ou na dos outros.
Apesar de todos esses horrores (repito que existem outros menos evidentes), as pessoas se associaram a esse movimento de ascensão da extrema-direita, que no Brasil é chamada de bolsonarismo, e que, em minha visão de mundo, é completamente inadmissível.
Curiosamente, no Brasil os adeptos afirmavam simbolicamente sua adesão a esse movimento através do ato de vestir o uniforme da corruptíssima CBF, como se isso fosse símbolo de patriotismo e honestidade.
Curiosamente, claro que por ignorância, uma parcela dos oprimidos (pobres, mulheres, negros, homossexuais e outros) aderiu ao movimento bolsonarista. Isso é comum em fundamentalismos estúpidos, não calcados em conhecimento multidisciplinar. Já testemunhei a existência de negro nazista; se há algo mais estúpido do que isso, nunca ouvi falar.
Posso estar errado? Posso, mas acho bastante difícil e, com o seu perdão, entendo que o meu posicionamento ideológico é mais condizente com o sentido de humanidade do que o posicionamento bolsonarista.
Isso porque o enquadramento ideológico atribuído a esse movimento não saí de mensagens de WhatsApp, mas a partir de declarações prestadas publicamente pelos líderes desse movimento e que estão na internet, basta pesquisar um pouquinho.
Como exemplo dessa inclinação preconceituosa, vou formular, abaixo, perguntas e respostas fundadas em entrevistas reais dadas por esses líderes:
Pergunta: O que o senhor faria se o seu filho namorasse uma preta?
Resposta: “Não vou discutir promiscuidade. Meus filhos são educados, não fariam isso”.
Pergunta: E se o senhor tivesse um filho gay?
Reposta: “Eu seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.”
Pergunta: O que o senhor faria se visse dois homossexuais se beijando em público?
Resposta: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro ele muda o comportamento dele. Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”.
Pergunta: O que o senhor acha da transfusão de sangue entre heteros e homossexuais?
Resposta: “Não deve ser feita. O sangue do homossexual pode contaminar o sangue do heterossexual”.
Pergunta: O que o senhor tem a dizer do golpe militar?
Resposta: “Acho que matou pouco, deveria ter matado pelo menos uns 30 mil”.
Pergunta: Qual o seu ídolo?
Resposta: “Coronel Brilhante Ustra” (torturador do regime militar).
Pergunta: O senhor esteve num quilombo. O que tem a dizer?
Resposta: “Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriar ele serve mais". (Arroba e procriação é linguajar utilizado para falar de gado).
Enfim, existem inúmeras outras, mas essas declarações públicas comprovam cabalmente o alto nível de preconceito que permeia esse movimento.
Além disso, o bolsonarismo acredita em meritocracia e outras bobagens que dão suporte à desigualdade social, essa mazela que torna o crime urbano uma espécie de guerra civil não declarada (e nem mesmo consciente por parte do criminoso e da maior parte dos cidadãos e agentes públicos).
Nem vou entrar aqui no mérito do governo propriamente dito, nem das 700 mil mortes, pois o pouco caso com os cuidados que o povo necessita, por parte do criminoso que agora está preso na Papudinha, já era amplamente esperado.
Em paralelo, o afastamento também decorre de que tenho ciência de que o avanço da idade, por si só, é incapaz de necessariamente trazer sabedoria.
Novamente não sou eu que digo, mas a ciência humana, que o tempo, por si só, é incapaz de modificar o pensamento arraigado. Isso depende de crescimento no âmbito da consciência, o que exige letramento, ou seja, leitura de livros ou presença como ouvinte em palestras, tarefa que não se realiza por qualquer fator externo à pessoa, mas somente através de forte convicção pessoal da necessidade de aquisição de conhecimento.
Claro que a pessoa pode considerar que não precisa disso, sabe-se lá por quê.
De fato, cada um pode ser convencer que, independentemente de leitura, aulas ou qualquer outro tipo de modo de aquisição de saber, já alcançou a plenitude da compreensão da realidade e por isso não precisa de mais conhecimento algum. Talvez isso seja possível por osmose, apenas segurando um livro fechado, vai saber.
Aí fica a cargo da consciência de cada um e ninguém tem nada a ver com isso.
Enfim, qual a razão dessa mensagem apesar do que você disse na sua quanto a por um "tampo" na relação?
Quero que não haja dúvida alguma de que esse é o meu posicionamento e o motivo do meu afastamento. Não quero que prevaleçam “narrativas” sobre isso. Vou arquivar esse texto e mantê-lo até o fim dos meus tempos.
Quero que nós dois saibamos exatamente o que penso para que, daqui a 20 anos, se durarmos tanto, não tenhamos dúvida alguma de que me afastei por conta de sua adesão a uma política que, para mim, é clara e nitidamente voltada para, aos poucos, perpetrar o mal. Tenho convicção plena de que, se houver sucesso da extrema-direita por alguns anos e estivermos vivos, você testemunhará o resultado maligno e não terá mais dúvida alguma da real natureza desse movimento.
Não tenha dúvida: dê tempo à extrema-direita, uns 20 ou 30 anos, e voltaremos aos tempos em que a escravidão era uma prática comum do liberalismo econômico, com os trabalhadores tendo todos os direitos trabalhistas cassados.
Por isso mesmo, desejo que você nunca alcance essa convicção, pois isso implicaria o sucesso desse movimento e na infelicidade coletiva, inclusive a minha (se vivo estiver) e a da minha família, assim como a sua e a da sua família (o que de coração não desejo).
Dito isso, saliento que sem dúvida alguma é direito seu persistir nesse pensamento e, dito o que quis dizer, devo respeitar isso e continuar afastado, talvez ainda com maior distância.
Esclareço que isso que estou fazendo aqui não é desrespeito, é exercício da dialética, do debate, da discussão civilizada. Você diz o que pensa e eu tenho o direito de criticar, educadamente, o seu pensamento, assim como você tem o direito de criticar, também educadamente, o meu pensamento.
O direito de crítica somente não existe para as escolhas absolutamente individuais, sem repercussões externas à própria pessoa (como, p.ex., a roupa que vai vestir ou a orientação sexual), mas, caso a sua opção afete o mundo de terceiros, esses terceiros possuem todo o direito de se opor abertamente à sua opção.
Essa, porém, é a última mensagem que vou lhe enviar, salvo se você enviar outro que eu entenda que merece resposta (educada, sempre).
Após expedir, porque reconheço que sou chato, vou excluir o seu telefone de minha agenda, para que eu não tenha a tentação de enviar outra mensagem no futuro.
Vou fazer isso não por raiva, mas por reconhecer a minha dificuldade de não produzir contraposição mesmo quando não quero fazê-lo. Sempre fui um falastrão sem freios na língua. Essa mensagem é prova disso. Eu tinha decidido a não responder sua mensagem. Peço desculpas por isso e garanto que não ocorrerá novamente (por favor, não responda essa mensagem, isso pode desencadear uma necessidade incontrolável de contra-argumentar).
No entanto, caso nos encontremos por acaso, em qualquer lugar, saiba que te trarei com o maior respeito. É o mínimo que devo àquele que tantas vezes dividiu comigo um filé à milanesa no Feijão Carregado. Você é um grande sujeito.
Antes de fechar o “tampo” completamente, repito que você e sua família ainda moram no meu coração. Só desejo o bem de vocês, no passado, agora e no futuro.
Como sou de esquerda convicto desde os quinze anos, certamente nunca mudarei de posição, inclusive porque os “gigantes” de que falei somente acentuaram essa minha natureza.
Por outro lado, pelas suas características, que conheço bem, acho difícil também qualquer mudança. Porém, no caso extraordinário de você reconsiderar seu posicionamento e com isso vir o desejo de retomarmos a amizade, é só falar. Até lá, vamos fazer como você recomendou. Vamos colocar um “tampo”.
Grande abraço em todos e adeus!

Nenhum comentário :
Postar um comentário