sábado, 5 de outubro de 2013

Processo civilizatório e os soluços da insensatez

Para as pessoas que possuem consciência política de fato,ou seja, que não se limitam a repetir bordões e aderir a linchamentos, mas estão verdadeiramente preocupadas em entender os meandros que conduzem o processo político mundial, Brasil no meio, a apresentar-se como se apresenta, recomendo a leitura desse excelente texto do jornalista, economista e músico Luis Nassif.

Basicamente, Nassif acredita que o Brasil está vivenciando um momento histórico de inclusão social, similar ao da libertação dos escravos e à conquista das sufragistas pelo direito de voto feminino, por exemplo. Nessas ocasiões, sempre insuflado pela mídia conservadora, que protege os interesses da porção mais rica da sociedade, o povo, notadamente a classe média, se divide entre os que aderem à inclusão social (os abolicionistas ou feministas, por exemplo) e os que preferem a manutenção do status quo anterior (os escravagistas ou sexistas).

Tal cisão de opiniões no seio social gera um crescente de sectarização, como está ocorrendo entre petistas e anti-petistas atualmente, que culmina na radicalização política, onde cada parte entrincheira-se nas próprias convicções e, não somente não cede a qualquer argumento do lado contrário, como na verdade deixa de lado as tentativas de argumentação crítica racional, passando a utilizar, como ferramentas de retórica, a falácia e o sofisma.
A radicalização pode, por fim, consagrar a evolução do processo civilizatório ou, pelo contrário, sua involução, estimulando a criação de ambientes favoráveis ao surgimento de regimes totalitários ou fomentar guerras civis, como foi na Alemanha nazista ou na guerra de secessão americana. Ao fim e ao cabo, todos perdem com a intolerância e a radicalização do posicionamento político.
Em outras palavras, toda solução deve vir do espaço democrático, do respeito à Constituição e com a aceitação das decisões democraticamente adotadas. Democracia não é exigir a materialização daquilo que você pensa, mas a aceitação do que a maioria decide. O contrário disso é o fascismo.
É interessante observar que Nassif sugere, entrelinhas, que o Tea Party americano, que concentra o sectarismo político de extrema direita dos EUA, é a ponta de um iceberg totalitarista que começa a rugir ferozmente no estômago da Águia. É assustador imaginar que uma sombra maligna de tal magnitude, que ameaça o planeta inteiro, começa a crescer na maior potência militar de todos os tempos.
No mais, Nassif explica porque não temos um Tea Party brasileiro, fundamentalmente apoiando a sua tese na circunstância de termos uma Constituição extremamente detalhista, que abre pouco espaço para interpretações anti-democráticas. Segundo ele, um luta de Ulysses Guimarães para evitar novas aventuras ditatoriais num país até então habituado a elas.
Aqui, transcrevo um pequeno trecho:
"Periodicamente, o processo civilizatório sofre soluços de insensatez, tempos bicudos em que falham as ferramentas institucionais de mediação, os avanços são esquecidos, a radicalização campeia e o jogo político se torna selvagem.
...
O ponto inicial desses terremotos são os grandes momentos de inclusão da história.
Especialmente nos regimes democráticos, a civilização se forma a partir de processos gradativos de inclusão social e política. Foi assim na abolição da escravatura, nas lutas feministas e nos grandes movimentos migratórios, do campo para as cidades ou entre países.
Cada luta é um parto. Depois dela, o renascimento do país em um nível superior. Durante, criam-se momentos propícios para o exercício da intolerância, influenciando especialmente a classe média estabelecida, o chamado cidadão-massa, alienado em relação à política e às próprias organizações do seu meio.
É ele que se sente ameaçado no seu emprego ou no seu status, nas suas convicções, em um quadro em que o ritmo das mudanças torna a vida imprevisível.
...
Na Europa e Estados Unidos aumentou a intolerância em relação aos imigrantes, especialmente depois que a desindustrialização interna e a bolha imobiliária empobreceram a classe média. No Brasil, a resistência em relação à chamada nova classe C.
Esses movimentos são potencializados pelas novas formas de comunicação, pelas redes sociais, permitindo pela primeira vez, em muitos países, manifestações políticas que geraram inúmeras “primaveras”. Mas também a difusão de preconceitos e intolerância.
Mas, principalmente, pela exacerbação da velha mídia, do velho conceito de mass midia, vivendo seus estertores.
..."
Leiam o conteúdo integral no link em destaque:
http://jornalggn.com.br/noticia/como-a-constituicao-de-ulisses-salvou-o-brasil-do-tea-party

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