quinta-feira, 12 de março de 2015

Afinal, "coxinha" é um palavrão?




Não há dúvida de que, em qualquer setor do conhecimento e da práxis humana, a polifonia sempre será saudável. Isso se aplica também, principalmente e não poderia ser diferente, à política, pois a existência de visões múltiplas sobre a melhor maneira de organizar a sociedade permite que a escolha recaia sobre aquela que se revele mais adequada.
Como diz o velho e sábio ditado, várias cabeças pensam melhor do que uma.
Esse processo, claro, envolve a discordância dos defensores do projeto perdedor. Tal oposição é normal e aceitável na democracia, desde que não extrapole o âmbito da razão e não ser arvore na pretensão de derrubar, por vias oblíquas, o que democraticamente foi decidido. A racionalidade é o caminho, sempre.
Um amigo, porém, lúcido, polido e racional, preocupado com a tensão política que estamos testemunhando, discorda do uso da palavra "coxinha" para referir-se aos antipetistas, por entender que a oposição possui o direito de manifestar-se e que as portas devem manter-se abertas para o diálogo, único meio racional de convencimento.
Como discordar desse argumento? Num primeiro momento, não há como.
Prossegue ele, afirmando que a oposição antipetista brasileira não pode ser comparada aos nazistas, pois, afinal, estes faziam abajur com pele humana. Argumenta ele que, mantido esse enfrentamento mais acirrado, a coisa tende a piorar e, que para evitar isso, devemos nos manter dispostos a enxergar a racionalidade do outro, que deve ser tratado como um interlocutor legítimo, apesar de tudo.
O argumento é perfeitamente válido. Porém, cabe lembrar que, no início, os nazistas não faziam abajur com pele humana. Isso, e coisas muito piores, veio a ocorrer bem mais tarde, de forma gradual, encorajados que foram pela leniência inicial dos alemães. Muitos alemães, na verdade, somente descobriram o horror nazista no final da guerra. A covardia moral dos alemães foi cúmplice do Holocausto.
O registro histórico, assim, nos ensina que não basta uma minoria do mal invocar o mal para que o mal se materialize. O sucesso e o esplendor do mal envolve a ingenuidade, a passividade, a leniência, a pusilanimidade da maioria que é do bem.
Quem não aprende com o passado está fadado a repetir a tragédia, ainda que sob o manto de farsa, como pontificou Marx.
Hoje, os antipetistas irracionais gritam contra nordestinos, não aceitam resultados democráticos de eleições e propõem a extinção do voto de quem recebe benefício do governo. Hoje são acumpliciados pelo discurso raivoso e obscurantista de Felicianos, Malafaias, Bolsonaros e Lobões, que estrilam contra os direitos humanos, contra gays e outras minorias e também contra os avanços da ciência.
Que sinal mais claro de fascismo poderia ser dado além desses?
Em que momento é rompido o limite entre o legítimo direito de manifestação política e o início de um projeto totalitário fascista? E, chegado esse limite, qual o papel a ser exercido pelo cidadão de bem contra esse projeto?
Acredito que a denúncia escancarada do mal integra o papel do cidadão.
Talvez se possa evitar o uso da palavra "coxinha", trocado por "antipetista", mas isso, em si, não é relevante, assim como não seria no início da ascensão do nazismo designar os nazistas pelo adjetivo que mereciam: "facínoras".
Acreditem: “coxinhas” não estão nem aí para o fato de serem chamados de “coxinhas”. Para eles não é o adjetivo que interessa, mas o sucesso do projeto antipetista. Alguns demonstram certo orgulho de ser “coxinha”.
Aliás, os antipetistas não possuem pudor algum no uso de adjetivações pejorativas, como "petralha", “esquerdopata”, “comunista” e por aí vai. De vez em quando, sugerem o exílio de petistas em Cuba. Vamos combinar que, diante disso, chamar alguém de “coxinha” é até carinhoso.
A questão real, fatídica, inescapável, é que acabou a tranquilidade, o marasmo mesmo, que envolvia a política brasileira desde o fim do Golpe Militar. A partir de agora, compete a cada cidadão defender o modelo de sociedade que deseja para o país.
Para os opositores mais relevantes do PT, esse modelo vem embalado no pacote neo-liberal.
Para os petistas, o projeto neoliberal não conduz a sociedade a realização da justiça social e do florescimento humano.
Essa divergência está circunscrita ao âmbito da convicção política pessoal, o que pode ser enfrentado pela via da dialética racional.
Contudo, os antipetistas que são designados de “coxinhas” possuem um único projeto: tirar o PT do poder a qualquer custo, mesmo se isso exigir a ruptura institucional, seja através da colocação de um fascista de direita no poder, seja com o sonho do retorno à ditadura militar, no fundo duas cabeças da mesma serpente. Para alcançar esse objetivo, adotam a retórica do sofisma, da fraude, da mentira, utilizam um tom falso de indignação para “denunciar” no PT as mazelas que historicamente sempre permearam as relações políticas. Na cabeça dos “coxinhas”, o problema não são essas mazelas. Não são elas que devem ser combatidas através de uma reforma política. Todo os problemas brasileiros atendem pelo nome de PT.
Essa indignação é sempre seletiva: nenhum outro partido possui defeito.
O mantra “coxinha” é de que tudo no Brasil piorou após a entrada do PT no governo, que nenhuma melhora pode ser creditada à gestão petista, mas sim ao quadro favorável internacional, e que, não fosse o PT, seríamos hoje certamente a maior potência do planeta.
Por incrível que pareça, muitos tolos têm embarcado nesse discurso “non sense”.
O neoliberalismo desejado pelos tucanos, ainda que dele se discorde, é um projeto econômico-político legítimo, que pode ser colocado na pauta de discussões públicas como uma opção de futuro. É ruim e deseja-se que sucumba na urnas, mas é um direito de seus defensores que seja colocado em questão.
O projeto petista, mais vocacionado à gestão da questão social e ambiental, é igualmente legítimo.
O que não possui legitimidade é o discurso moralista seletivo e desagregador do anti-petismo fundamentalista.
Oposição real é bem-vinda e sempre será, o antipetismo fundamentalista, porém, não pode ser definido como oposição. Trata-se de manifestação da plutocracia enraivecida, que não aceita qualquer concessão às classes menos favorecidas.
Nesse sentido, os "coxinhas” devem ser repudiados de forma pública e, de preferência, ridicularizados. O “coxismo” deve ser expurgado de nossa realidade política porque não representa um posicionamento político compatível com o nível civilizatório da humanidade, que exige a prevalência da dignidade da pessoa humana.
O “coxismo”, como vertente política, constitui um sinal claro do início do mal.
Suas manifestações não deveriam, como são, admiradas e repercutidas pela mídia, pois isso os torna um exemplo a seguir, produzindo efeito multiplicador sobre a malignidade.
É essa repercussão midiática que justifica e confere todo sentido ao repúdio massivo da parcela sensata da população brasileira, que deve contragolpear essa repercussão através da rede.
Está em nossas mãos evitar a ascensão do mal.
Que fique a oposição sensata, que busca o bem do Brasil, mesmo que dela se discorde.
Os coxinhas, entendidos como fundamentalistas radicais, precisam ser estimulados a voltar ao buraco escuro e silencioso de onde surgiram.

Um comentário :

  1. como pode alguém escrever tantas linhas sem dizer nada...

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