sábado, 25 de abril de 2026

Mensagem para os meus amigos

 


Publicado originalmente no Facebook, em 20/03/2015 

Hoje em dia praticamente não utilizo mais o Facebook como um meio de inter-relação de amizade. Resolvi deixar isso para o mundo físico, para o contato real e visual, como sempre foi até poucos anos atrás. O Facebook constitui para mim, atualmente, apenas um canal de troca de informações e ideias sobre a política nacional, através do qual divulgo textos de minha autoria e também de outras pessoas, que considero importantes para reflexão.

Contudo, hoje farei uma exceção para dirigir-me aos meus amigos e familiares reais, de carne e osso, não virtuais.

Pertenço à classe média e maior parte de vocês, meus amigos, também.

Essa mesma classe média que tem se colocado contra o governo do PT.

Nada contra, faz parte do jogo democrático ser contra um partido e desejar que outro seja escolhido para governar. Fiz isso a vida toda. Os partidos políticos existem para isso mesmo, para representar as diversas formas do pensar político da sociedade. Democracia é isso: é o cidadão possuir o direito sagrado e inalienável de opção quanto àquilo que considera o melhor caminho para a sociedade.

Do mesmo jeito, realizar manifestações, greves e passeatas é o jogo jogado da liberdade de expressão. O cidadão tem o direito de exteriorizar sua insatisfação com o projeto político que está em andamento.

Todavia, existem limites insuperáveis nesse jogo político. Um desses limites é a exteriorização de preconceitos, de falta de humanidade, de sensibilidade pela dor do outro ser humano e de clamor pela vinda de um regime de exceção, de uma ditadura.

Amo os meus amigos reais e, ao mesmo tempo, não me considero tão importante assim na vida de ninguém. Talvez para minha esposa e minhas filhas. Repito: talvez...

Estamos, porém, vivenciando um período muito complicado na democracia brasileira. Os ânimos estão exaltados e, de fato, não acho impossível que sobrevenha um acirramento tal que conduza a população a uma turbulência de grandes proporções, a um confronto civil. Por ora a ideia parece meio insana, mas... a imprensa colabora diuturnamente para a beligerância, pois não cansa de colocar querosene no incêndio.

Toda divergência política é aceitável. Entretanto, para mim existem algumas coisas que não posso aceitar vindas de amigos, como a demonstração de insensibilidade social de quem luta contra o bolsa-família. Ou a explicitação da falta de apreço pela democracia daqueles que gritam pelo golpe militar ou pela intervenção externa. Ou, ainda, a adesão a grupos neonazistas sob o argumento de luta contra a corrupção do PT.

Existem limites para tudo. Perdemos a antiga noção de princípios. Uma pena.

Sobre os neonazistas, acho que não preciso dizer nada. E se precisar, é o que basta para a amizade ser extinta.

Quanto ao bolsa-família, se a crítica não for produto de uma adesão impensada, ou seja, se decorrer de uma convicção refletida, racionalizada, do crítico, penso que se trata de demonstração explícita daquilo que essa pessoa traz de verdade no coração: egoísmo, falta de fraternidade e de altruísmo social, falta de noção de alteridade, insensibilidade.

O bolsa-família possui valor de R$ 77,00 por membro da família e somente é concedido às famílias com renda familiar de até três salários mínimos. É o mínimo do mínimo que se dá ao pobre e custa menos de 1% do orçamento público federal. Os desvios não chegam a 5% do valor total do bolsa-família. Para dar uma dimensão do reduzido tamanho do dispêndio, essa pequeníssima fatia do orçamento público auxilia quase 50 milhões de pessoas.

Pretender retirar isso do miserável representa, ao meu ver, apenas maldade. Não é uma orientação política, não é uma opção econômica, é pura falta de sensibilidade do crítico com a pessoa quem tem fome.

Existem mulheres que nunca na vida puseram os pés numa repartição pública para trabalhar e que deixam de casar para receber pensões vitalícias polpudas do tesouro público (como as filhas de militares e de determinados servidores públicos), às vezes de vários milhares de reais, mas não hesitam em condenar o bolsa-família e seus míseros R$ 77,00.

Existem pessoas que são funcionários fantasma em empregos públicos, mas exibem a cara-dura de condenar o bolsa-família e seus míseros R$ 77,00.

Existem pessoas que compram atestados médicos para fraudar o imposto de renda, mas não possuem escrúpulos em condenar o bolsa-família e seus míseros R$ 77,00.

Existem pessoas que são corruptas, desviam dinheiro público (vejam o caso do primo de um certo governador da região sul), mas se posicionam contra o bolsa-família e seus míseros R$ 77,00.

Os ricos, através de financiamentos públicos (BNDES e outros) e através do rentismo, com os juros altos dos títulos do tesouro nacional, embolsam milhões de vezes mais do orçamento federal do que os miseráveis do bolsa-família. Onde estão os críticos indignados contra esses ricos que avançam sobre o dinheiro dos impostos? Cadê as passeatas e os cartazes?

Não pretendo estar certo em tudo na vida, mas essa questão é, para mim, uma questão de princípio: não posso ser amigo de quem não compartilha comigo valores civilizatórios mínimos, que não sustentem um mínimo de simpatia e sensibilidade pela questão social. Sim, porque o bolsa-família é o mínimo que se pode fazer num pretenso estado de bem-estar social do qual, infelizmente, ainda estamos longe e, dada a grita insana contra essa mixaria do bolsa-família, talvez nunca alcancemos.

A sociedade humana pretende ser diferente dos bandos de animais porque somos pautados, ou devíamos ser, pela fraternidade. Pelo visto, nem religião, nem filosofia, foram ainda capazes de pôr amor no coração desse grupo que, parece, continua sendo apenas um bando disputando a dentadas um pedaço da carne sanguinolenta da presa abatida.

Muito antes de ser uma arma política, para o governo ou para seus críticos, o bolsa-família é um instrumento de manutenção de uma dignidade mínima para milhões de miseráveis brasileiros.

Não posso aceitar que alguém queira retirar esse mínimo do mínimo do pobre. Se é um estranho que assim age, eu o xingo e pronto. Se é um amigo... o coração lamenta, a decepção deprime.

Isso machuca minha alma, pois, no passado, passei pela experiência de acordar, dia após dia, sem ter um tostão no bolso, sem saber se, naquele dia, iria ter o que comer. Quando, ainda adolescente, enfrentei essa situação, por várias vezes desejei ter uma arma para poder assaltar e saciar a fome. Apenas por sorte, essa arma nunca chegou às minhas mãos e minha vida trilhou outros caminhos. Negar um auxílio humanitário a quem, hoje, passa pela mesma experiência angustiante e indigna, é totalmente inaceitável para mim. Peço desculpas para quem pensa o contrário.

Outro ponto que tenho por indiscutível é a ditadura, militar ou civil. Qualquer pessoa que clame pela ditadura, ao meu ver, ou é ignorante e não sabe bem do que está falando, ou é um fascista que não se importa com a liberdade do cidadão. De qualquer forma, não quero essa pessoa como amiga.

Com apenas 15 anos, lutei contra a ditadura, que já estava no fim, e cheguei a ser duramente interrogado por militares. É inaceitável, assim, ser amigo de um ex-torturador ou de quem estimula o seu retorno.

Enfim, programa de transferência de renda (bolsa-família ou qualquer outro), neonazismo (e os preconceitos que representa) e ditadura são os meus assuntos tabu. E isso ressoa tão profundamente em meu ser que não poderei mais manter contato ou amizade com quem divergir dessa opinião.

Infelizmente, é chegada a hora de cada brasileiro se posicionar. A minha posição está clara: ao lado da dignidade da pessoa humana, ao lado dos pobres. Não propriamente do PT, como muitos insistem em pensar, mas do ser humano que nasceu desprivilegiado. O PT vai sair do governo certamente, talvez já na próxima eleição. Isso não vai me abalar. Sobrevivi sem o PT no governo por quarenta anos.

As pessoas, porém, e suas necessidades, permanecerão. Isso é o que de fato me perturba.

Peço desculpas a todos que eventualmente se enquadrarem em algum dos assuntos tabu, não pretendo magoá-los e nem de longe acho que devem mudar de pensamento.

Estamos, porém, em lados tão díspares do pensamento sobre o que é a civilização e sobre os fundamentos nos quais se funda a sociedade, que não vejo razão, ou propósito, em manter qualquer relação.

Felizmente ou infelizmente, nasci passional.


Links:

https://marciovalley.blogspot.com/2013/07/bolsa-familia-experiencia-internacional.html


https://marciovalley.blogspot.com/2017/05/a-insanidade-do-apelo-bolsonaro-ou.html

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