domingo, 30 de dezembro de 2012

Sonhadores

A resistência dos conservadores àquilo que é fora do comum é apenas o lado visível de seu medo de agir.
Essa resistência é a origem do desdém, repressão e preconceito em relação ao diferente.
No final, porém, o destino da humanidade sempre será traçado pelos sonhadores. Porque quem sonha torna real para si aquilo que quer e que, ironicamente, acaba por ser também o enrustido e inconsciente desejo de mudança dos conservadores. E juntos, paulatinamente, os sonhadores nos presenteiam com um novo mundo.
Há, contudo, um pré-requisito indispensável para ser sonhador: não temer a exposição e o ridículo.
Em geral, uma pessoa define outra como ridícula quando a vê realizando aquilo que ela própria gostaria de fazer, mas cuja coragem para a ação lhe falta.
Obrigado aos sonhadores pela audácia transformadora.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sou assim, sou mulher!


Gosto dos olhares masculinos lançados sobre mim, sobre o meu corpo. Aquele olhar faminto, sedento, desejoso, que fazem suas pupilas seguirem à velocidade do meu próprio passo, que, de propósito, faço ligeiramente rebolante, mas sem descambar para o vulgar.
Afinal, que mulher sinceramente pode afirmar não possuir uma íntima satisfação em ser desejada?
O prazer proporcionado por um vestido colante, que deixa à imaginação alheia o contorno do que vai por baixo, não está no que vejo no espelho, mas revela-se a mim no olhar do outro. Ou da outra. O olhar do outro é o verdadeiro espelho de Narciso.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Liberdade!

Curiosa a reação das pessoas ao tema liberdades individuais.
Se perguntado a qualquer um sobre o que acham da liberdade em tese, ninguém será capaz de discordar de ser ela, a liberdade, um bem sagrado do ser humano. Liberdade na propriedade privada, liberdade de opinião, liberdade na expressão do pensamento, são espécies de liberdade unanimemente consideradas como direito ínsito à própria existência do homem.
Claro que toda liberdade envolve restrições, sempre à vista da liberdade do outro. A liberdade da pessoa encontra sua fronteira na de outra.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre os royalties do petróleos

O enfrentamento da questão dos royalties do petróleo exige que se tenha ciência prévia de que uma federação é definida como um ente estatal constituído pela união de estados que, em princípio, poderiam ser independentes e soberanos. Os estados, ao resolverem integrar uma federação, resolvem renunciar à parte de sua soberania em prol da realização de um projeto comum de sociedade. Para tanto, reúnem-se numa só entidade nacional que passa a ser chamada de União.
Isso significa que o mar que faz fronteira com os estados somente pertence à federação porque, antes, o estado decidiu integrar a União.
Hipoteticamente falando, se o estado do Rio de Janeiro se desvinculasse da União, passando a constituir um país soberano, o mar com o qual se confronta imediatamente passaria a integrar o seu território, até o limite da plataforma continental.

domingo, 11 de novembro de 2012

Teórico alemão repreende STF

Claus Roxin é um dos mais influentes estudiosos do direito penal alemão, sendo o introdutor do princípio da bagatela na doutrina jurídico-criminal em seu país. Segundo essa doutrina, de forma bem resumida, não cabe a condenação de ninguém por lesão sem gravidade alguma. Ao lado disso, ele é, também, o principal teórico do domínio do fato, teoria largamente utilizada pelo STF no julgamento do chamado "mensalão" do PT.
Durante o julgamento, diversos juristas pátrios manifestaram incômodo com a perspectiva que nossa Suprema Corte adotou para a aplicação da teoria do domínio do fato. Segundo o STF, a mera posição hierárquica de José Dirceu conduziria necessariamente à presunção de que ele tinha o conhecimento e o comando dos supostos ilícitos praticados no esquema do "mensalão".

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A farsa do julgamento do mensalão


A farsa do julgamento do chamado “Mensalão do PT”, que se desenhava, já está completamente demonstrada. O que chamo de farsa? Um julgamento casuístico, com entendimentos casuísticos, somente aplicáveis ao julgamento do caso do PT.
O primeiro ponto já foi escancarado pela Procuradoria Geral da República: a tese de caixa dois, rejeitada para o PT sob as mesmas circunstâncias, foi aceita para o mensalão do PSDB. Disso decorre a ausência de denúncia contra deputados envolvidos na caso do PSDB, ante a prescrição já consumada.

sábado, 3 de novembro de 2012

Mensalão no botequim


- E aí, Carlão, como vai, irmão?
- Beleza, tudo bem. Parece que agora as coisas vão começar a dar certo no país.
- Como assim, mano? Porque você acha isso?
- Ô, cara, é por causa desse tal de mensalão. Começaram a botar os políticos na cadeia, mano véio. Agora acaba a sem-vergonhice.
- E você sabe sobre o que é esse tal de mensalão?

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dez pensamentos sobre a justiça sob o impacto do "mensalão"

Primeiro pensamento.
A aplicação e interpretação da lei pelo poder judiciário nunca foi sinônimo de aplicação de justiça em sentido amplo, como ideal de distribuição dos direitos inerentes à condição humana, e mesmo em sentido estrito, considerada a intenção dessa mesma lei.
Segundo pensamento.
A lei serve apenas para a manutenção do status quo político e econômico. Assim, se for produzida por um governo totalitário, servirá para manter o totalitarismo. Serve de exemplo os poderes judiciários da Alemanha nazista e da União Soviética. Nos dias de hoje, o judiciário dos Estados Unidos da América é um bom exemplo de pusilanimidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Barbie negra


Navegando pelo Facebook, deparei-me com uma postagem feita por pessoa amiga, na qual aparecia a fotografia de uma boneca Barbie negra, todavia com feições nitidamente finas. A fotografia supostamente intentava elogiar a beleza negra.
Uma outra pessoa, porém, arguta, fez uma crítica bem razoável, afirmando que a boneca não representava a beleza negra, pois possuía traços finos.
Refutando essa crítica, um outro comentarista postou o seguinte argumento: "É besteira acreditar que, todos os negros tenham que ter traços de negro; cabelo ruim, nariz achatado e outros mais; acreditem, existem pessoas de pele escura que tem os mesmos traços que as pessoas de pele branca, bem como brancos com cabelos crespos como os negros."

sábado, 6 de outubro de 2012

O domínio do fato


Para quem não sente simpatia pelo PT ou para os que, de tão revoltados com a corrupção, estão aplaudindo o linchamento jurídico promovido pelo STF, cabe chamar a atenção para a circunstância de que, a ser fixada essa jurisprudência do “domínio do fato”, todo e qualquer dirigente, público ou privado, passa a correr o risco de ser responsabilizado, civil e criminalmente, inclusive com pena de prisão, pelos atos ilícitos praticados por seus subordinados.
O STF promove a inversão de conquistas históricas obtidas pela civilização humana, como a que imputa ao Estado o dever de provar a culpa do acusado. O “domínio do fato” abre a possibilidade de condenação sem prova.
Nos Estados Unidos, por medo do terrorismo, autorizou-se o Estado a prender sem provas e por tempo indeterminado. Aqui, está-se autorizando a condenação sem provas, somente por correlação lógica entre o fato e o acusado (lógica do promotor e do juiz). Na Idade Média, o rei ou o bispo também podiam prender sem provas, baseados na própria e sagrada palavra.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A inteligência é um bem?

A inteligência humana, avançada e racional, produz o pensamento e, por ser sua criadora, inexoravelmente o vicia na origem, sendo essa contaminação que faz engendrar, nos seres humanos, o pensamento antropomórfico, ainda que dissimulado, não aparente. Esse vício de origem constitui uma característica de toda inteligência e não propriamente da inteligência dos humanos. Deveras, se as formigas possuíssem inteligência consciente e racional, certamente seus pensamentos tenderiam a imaginá-las como os seres mais importantes do planeta, provavelmente criados à imagem e semelhança da Grande Formiga, criadora de todos os formigueiros e que sobre elas reina no formicéu.
Embora seja a inteligência humana a causa do surgimento da razão e da produção de conhecimento, trata-se de um atributo de valor dúbio. Não há fundamento algum para, por princípio, afirmá-la como um elemento incontroversamente positivo ou sem o qual a vida dos humanos seria pior.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

É ridículo


É ridículo sentir-se superior a outra pessoa por que se tem mais dinheiro ou poder. É falta de humildade.
É ridículo pretender que as outras pessoas estejam sempre disponíveis para si. É egolatria.
É ridículo ofender-se em função da opinião contrária manifestada por outra pessoa. É intolerância.
É ridículo considerar-se superior às pessoas em função da cor da pele ou etnia diferente. É falta de fraternidade.

sábado, 15 de setembro de 2012

O banal do amor

O escritor português José Luís Peixoto é autor de um pequeno texto chamado “O amor burguês”. Muito bonito, o texto fala sobre a ausência de poemas que descrevam o dia a dia do amor, como, por exemplo, um casal fazendo compras no supermercado. Segundo o autor, “é muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos”.
Perfeito.
De fato, ás vezes não percebemos como algo comum pode ser muito mais importante que qualquer coisa rara. Vou dar um exemplo radical: o ar que respiramos. Nada é mais importante e, ainda assim, mal nos damos conta de sua existência.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Pessoas pequenas

Impressionou-me um documentário produzido pelo Discovery Channel sobre nanismo, cujo link disponibilizo após o texto.
Há um senso comum que nos informa que a pessoa anã é, por definição, pequena. Porém, o quanto pequena é necessário ser para que a pessoa possa ser afirmada como anã?
Cientificamente, considera-se anã a pessoa cuja altura é inferior em mais de vinte porcento à estatura média. Atualmente, considera-se anão o homem adulto menor que um metro e quarenta e cinco e a mulher adulta menor que um metro e quarenta.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O animal interior

Afinal, qual o elemento de dominância em nossas ações, os hábitos da cultura ou os instintos da evolução?
Trata-se de questionamento para o qual não há unanimidade entre os pensadores simplesmente porque é praticamente impossível aferir a real motivação subjacente a cada ação humana.
Em termos meramente evolutivos, e considerando a origem comum de todos os animais e a consequente evolução comum dos instintos, dificilmente alguns milhares de anos de cultura se imporão profundamente sobre cerca de um bilhão de anos de reações instintuais.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Noblat x Toffoli - Falsa indignação

O colunista Ricardo Noblat (ou seria jornalista?), do jornal O Globo, algum tempo atrás, afirmou ter comparecido a uma festa onde também se encontrava presente o ministro Dias Toffoli, do STF. Nessa festa, teria escutado, sem ser visto, o ministro xingá-lo com os mais escabrosos palavrões.
Além desse episódio, Noblat produziu uma campanha em sua coluna exigindo que Dias Toffoli se declarasse suspeito no assim chamado Caso Mensalão, postando um vídeo no Youtube exigindo a suspeição do ministro. O link para o vídeo é indicado ao final do texto.
Posteriormente, fica-se sabendo que o ministro Dias Toffoli está julgando um caso em que a mulher de Noblat é ré. Um caso significativo, que gira em torno de trinta e três milhões de reais. Quem é o verdadeiro suspeito para a função, nesse caso? Toffoli, para julgar o mensalão, porque foi advogado do PT, ou Noblat, para acusar ou criticar o ministro, já que sua mulher pode ser julgada pelo ministro?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Pequena imensidão

Enganou-me um dia a ilusão de ser imensidão.
Mestre de todo tempo, senhor da eternidade, a morte, para mim, não existia. Sentia-me, não montanha isolada na planície, nem o pico mais alto da serrania, mas toda a cordilheira da superfície, gigante a perder de vista, sem fim, no horizonte.
Desconhecia limites, medos, era um ímpio. Meu poder não era o de Zeus, mas o do inteiro Olimpo.
Um imenso oceano pretensioso de ser. Enorme e audaz furacão faminto de tudo ter, criando vagalhões a cada movimento no espaço. Como fosse o próprio Sol a iluminar todo ser e qualquer passo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Arte refinada, arte popular

O cantor Gusttavo Lima, apresentando-se em um show em Bauru, São Paulo, num evento com cerca de quarenta mil espectadores, quebrou sua guitarra no palco e, depois, atirou os pedaços para a plateia. Um dos pedaços atingiu uma menina de dez anos, que necessitou de atendimento hospitalar. Os pais da menina registraram a ocorrência numa delegacia policial. Porém, após a visita do cantor, desistiram do processo e estenderam uma faixa, em sua residência, afirmando amá-lo.
Por conta desse episódio, alguns comentaristas de blogs criticaram, não somente o fato em si de uma criança de dez anos estar num evento desse porte e de o cantor ter agido, como agiu, de forma imprudente, mas o próprio valor artístico da música do Gusttavo Lima e de outros do mesmo estilo, como Luan Santana e Michel Teló.
Não manifestarei opinião sobre a conduta do cantor e dos pais da menina, pois são pertinentes às suas vidas particulares que, em princípio, não possuem interesse específico para a coletividade.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Praias desertas

Ando por praias desertas, na fronteira do mar que avança
Com suas ondas abertas percorrendo a fina areia branca.
O vento, mantenho nas costas, como espécie de alavanca,
E sigo o caminho à frente, largando sinais na areia ardente

No afã de vê-las seguidas, as pegadas que vou deixando,
Por pessoa tão querida que a mim deseje acompanhando,
Vou deixando atrás dos passos, marcas do meu caminhar.
Sempre que viro para trás, porém, olho e não há ninguém.

Embora acalme o coração, a visão de paz que traz o mar,
Das ondas me vem aflição, de um incessante gargalhar,
Nesse infindável vai e vem, penso em mim como um navio
Em cujo casco bate, impiedosa, a força plena de um mar bravio.

Por que ri o mar de minha triste solidão? Por que te ris assim, ó mar bravio?
Tu que és tão grande, não te vens dessa grandeza um pingo só de compaixão?
Ó, imenso lar de todo peixe, estrada para toda e qualquer embarcação,
Não percebes em minh'alma o desalento, o mesmo frio sentido no teu vento?

Sê magnânimo, dê-me um aceno, um gesto de carinho, leve carícia.
Ajudai-me com a força dessa sua imensidão a alçar o sonho que acalento
De ser capaz de doar um amor tão puro, como jamais se tem notícia,
E assim largar o peso da incompletude para encontrar a paz, a plenitude.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Medo de viver


























Que intrépida pessoa não carrega em seu recôndito o terrível medo de errar?
Qual, desses corajosos, jamais temeu praticar o ato que, na verdade, secretamente desejava?
Quem nunca deixou de desfrutar a liberdade ao seu alcance, preferindo as amarras da renúncia, pelo apavorante temor de sofrer ou, pior, fazer sofrer?
Em algum momento, todos temem prosseguir, todos temem o imponderável, todos temem o erro.